“Desde sempre sentia um desencaixe”

Por Larissa Carvalho

Ser negra, para a cantora paulistana Anna Tréa, “foi um reconhecimento que veio aos poucos”. Pele clara, cabelos crespos. Esses traços causavam conflitos em Anna, ora chamada de branca ora reconhecida como preta pelas pessoas ao seu redor. “Eu me sentia meio alheia em todos os ambientes em que frequentava, eram ou muito brancos ou muito pretos”.

Foto_BiancaKida2 - Cópia
Foto: Arquivo pessoal.

Há apenas cinco anos, o colorismo chegou aos ideais de Anna. Foi um processo, como relata, grande e muito revelador. “Passei a olhar e compreender onde foi que entrei por conta da minha pele ser clara e onde não entrei por ter o cabelo crespo ou mesmo o inverso disso. Estar num ambiente branco e rico e não ter os mesmos privilégios ou estar num lugar preto e sentir os meus privilégios”.

O colorismo é um termo originado pela ativista e escritora negra Alice Walker, autora de “A Cor Púrpura”, em 1982. O que caracteriza é a avaliação da sociedade pela aparência e tom de pele do indivíduo. Quanto mais a cor for clara, maior a probabilidade de ser aceito. Para além do meio social, essa realidade se contextualiza em comunidades menores também. Negros de pele mais clara que outros negros podem obter algum tipo de privilégio.

Vem e semeia…

Quando tinha oito anos de idade, Anna descobre a semente da música, a qual, para ela, germinará durante toda a sua vida. Explica que ela chega cedo. Nas festas com a família em casa, em que tocava pagodes, a menina de apenas quatro anos de idade ficava circulando e ali dançando. “Os instrumentos ficavam guardados em casa e eu ia mexer neles escondida. Depois, veio o encanto com o violão. Tenho a imagem de uma vitrine de loja e de ver o violão ali”. Quando surgiu a oportunidade de estudar no Centro Cultural Canhema, São Paulo, ela já tinha afeto pelo violão.

Sê inteira!

A identidade negra em suas ricas e amplas entrelinhas, além de contínua construção, como considera Anna, proporcionou e proporciona ela a compreender e encontrar raízes. “Estar em turnê com Emicida durante quatro anos me ajudou muito, por exemplo. Ali me reconectei com a cultura hip hop, que fez parte com muita força da minha infância e adolescência. Me conectar com a arte do bloco Ilu Obá de Min também foi muito forte. Hoje, trabalho ao lado da Gaby Amarantos como diretora musical”.

Trabalhar com a cantora paraense Gaby Amarantos a faz sentir “muito mais fortalecida como mulher, como pessoa negra e como potência”. Os encontros, segundo Anna, nos organizam enquanto pessoa, daí a importância da construção de vínculos e laços. “Sou muito grata e estou muito atenta nessa construção”.

Asa pronta

Anna Tréa afirma sobre ter passado por inúmeras situações de racismo. “Não percebi porque não me reconhecia negra, nem branca, nem nada, vivia num não-lugar de raça”.

“Uma mulher me viu saindo do prédio de uma amiga e perguntou se eu era a diarista porque ela estava precisando. Essa foi a primeira vez que eu entendi que, em prédio de rico, gente preta SÓ pode estar se for empregada, porteiro, faxineiro, etc. Já bateram na minha casa também e perguntaram se eu trabalhava ali”. (Anna Tréa).

“Um senhor me encontrou no elevador do prédio, onde eu morava em Perdizes, e perguntou se eu morava ali. Respondi que sim. “Mas com esse cabelo???” – ele disse”. (Anna Tréa).

Ao lembrar das situações, ela lembra que respondi a todos de maneiras diferentes, mas nunca deixei algo passar sem resposta. “Não é confortável, dói, mas foi dessa maneira bizarra que a coisa foi construída. Se queremos ver esse cenário diferente, temos que estar nesses lugares e fazer com que quem nunca teve que lidar com a nossa presença de maneira igual precise aprender”.

E ainda reflete sobre a importância da existência. “Eu existo, existimos e merecemos nossa fatia do bolo. E comeremos de boca cheia, rindo bem gostoso porque a vida é boa demais!”, dispara.

E eu vou. Ah, eu vou!

Lidar com o racismo no meio musical para Anna é a mesma dinâmica a qual se aplica na vida e em outros âmbitos. “Quanto mais soubermos sobre nós, nossa história, nossas raízes, mais estaremos preparados para propor uma nova maneira de ver e viver para pessoas, que sempre nos viram por um mesmo viés, aquele que nos exclui”.

Como cantora, ela considera o meio artístico como espaço de valorização da pessoa negra, já que “o suingue é muito nosso e a música negra é muito forte”. O que não significa dizer sobre o olhar das pessoas brancas perante aos negros ser diferenciado. “É importante estarmos juntos, nos fortalecendo, criando novas formas de fazer as coisas, assumindo lugares de poder, ainda que eles sejam criados por nós e imprimindo nossas marcas”, finaliza.

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