Há 50 anos, a primeira mulher negra entrava no Congresso Americano

Por Larissa Carvalho
Pesquisa histórica: Fred Souza (Arquivo Negrê)

Há exatos 50 anos, um marco histórico acontecia no Congresso dos Estados Unidos da América (EUA). A primeira mulher negra norte-americana era eleita e tornava-se congressista em 7 de novembro de 1968. Shirley Anita St. Hill Chisholm (1924-2005) era seu nome. Protagonista do momento histórico vivenciado no cenário da política norte-americana, na época com 43 anos, ela defendia a luta por direitos civis das mulheres, dos negros e pobres.

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Shirley Chisholm (1924-2005) foi a primeira mulher negra eleita ao Congresso Americano em 7 de novembro de 1968. Foto: Arquivo.

Shirley Chisholm fazia parte do Partido Democrata, tendo representado o 12º Distrito Congressista durante sete mandatos, no período de 1969 a 1983. “Em toda minha vida, nunca me dei por vencida, nem renunciei ao que queria”, são declarações de Shirley Chisholm no momento político. Antes da democrata, Margaret Chase Smith (1897-1995) foi a primeira mulher norte-americana a fazer parte do Congresso Americano.

Trajetória

Filha de imigrantes oriundos do Caribe, nasceu no dia 30 de novembro de 1924 em um dos distritos de Nova Iorque, o Brooklyn. Quando tinha três anos de idade, os pais de Shirley, Ruby Seale e Charles Christopher St. Hill, enfrentavam problemas financeiros. Por causa disso, ela e as irmãs mais novas tiveram de ir morar com a avó materna, Emaline Seale, em novembro de 1929. Seu novo lugar era uma fazenda na aldeia Christ Church, em Barbados. Esse momento da sua vida durou até os dez anos. Devido a isso, carregou com ela o sotaque indiano ocidental e se considerava uma americana barbadiana.

Retornou aos EUA, ainda com dez anos, no momento conturbado da Grande Depressão (1929-1939). Dado ao desemprego e recessão econômica, Shirley estudou em instituições públicas, entre elas, uma de Bedford-Stuyvesant, só para meninas, em 1939. Ficava situada em um dos bairro negro e central no Brooklyn. O ambiente escolar era predominado por crianças brancas, mas ela se destacava pelo seu desempenho. Com isso, ela ganhou bolsas em várias universidades de renome, o que não foi possível usufruir devido às dificuldades financeiras. A pedido dos pais, estudou no próprio bairro. Formou-se em Artes pela Brooklyn College, em 1946. Casou-se em 1949 com Conrad O. Chisholm, um investigador particular especializado em processos judiciais baseados em negligência.

Um caminho pela Educação rumo ao Congresso

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Shirley Chisholm (1924-2005) dedicou grande parte da sua vida à Educação. Foto: Arquivo.

Iniciou na área da Educação, trabalhando como professora em creches e depois foi diretora em escolas de educação infantil, a Friends Day Nursery em Brownsville, Brooklyn, e Hamilton-Madison Child Care Center em Lower Manhattan, entre 1953 e 1959. Atuou ainda consultora educacional na Division of Day Care, de 1959 a 1964. Começou a se engajar politicamente em instituições, como o National Association for the Advancement of Colored People (NAACP), ou Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor. A NAACP foi instituída em fevereiro de 1909 e é uma das mais antigas e influentes entidades ligadas à luta de direitos para os negros, nos Estados Unidos.

No ano de 1968, resolveu participar das eleições para o Congresso Americano e teve como adversário o líder dos direitos civis James Farmer (1920-1999). Após obter a conquista, começou sua carreira política, tendo participado de diversos comitês da Câmara, Agricultura, Educação e Trabalho. A atenção da congressista sempre era voltava às necessidades de seus apoiadores, pessoas de Bedford-Stuyvesant, bairro em que vivia. Shirley também fez parte da Liga das Mulheres Votantes e do 17º Distrito de Assembleia do Clube Democrático.

A coragem dela ao pensar além

Aspirou sua candidatura às Eleições Presidenciais do ano de 1972, aos 47 anos. Quando deu entrevista à imprensa do bairro Bedford-Stuyvesant, a congressista democrata afirmou na crença de que os norte-americanos no cenário do período eleitoral e também no futuro, estavam “dispostos a fazer julgamentos independentes dos méritos de um candidato baseados na sua inteligência, caráter, capacidade física, competência, integridade e honestidade”.

Seus interesses políticos e sociais eram direcionados na reivindicação dos direitos civis, principalmente dos negros, das mulheres e dos pobres. Durante seus discursos, suas manifestações eram pautadas por assuntos sobre sistema judicial do país, ação policial, reforma do sistema prisional, controle de armas e abuso de drogas. Shirley, de fato, lutava e vestia a camisa das causas que acreditava.

Na Convenção Nacional Democrata, Shirley obteve somente 10% dos votos. Antes das eleições internas, sofreu tentativas de assassinato e foi processada por motivos não divulgados, tendo sido impedida de ir aos debates televisivos. Quem representou o partido foi o historiador e político americano George McGovern (1922-2012). O advogado John Lindsay (1921-2000) também concorreu a vaga do partido para as Eleições de 1972. “Dizem-me que seria melhor que eu me afastasse, a fim de não dividir os votos dos liberais com John Lindsay e George McGovern”, declarou Shirley Chisholm. E ainda questionou sobre o pedido para ela desistir de sua candidatura. “Sou a candidata única. Sou negra e sou mulher. Por que não pedem a Lindsay e McGovern que se afastem do meu caminho?”, disparou.

Quem venceu a disputa eleitoral foi o advogado Richard Nixon (1913-1994), 37º presidente eleito dos EUA. Quando foi questionada após o resultado de sua candidatura, rebateu. “Prefiro ser lembrada por continuar lutando ao longo da minha vida pelos direitos das mulheres e dos afro-americanos”. Em 1982, resolveu se aposentar de sua vida política como congressista e voltou para a educação. No entanto, fundou também o Congresso Político Nacional das Mulheres Negras em 1984.

Legado

Na sociedade racista e altamente segregadora a qual nasceu e viveu sua história de vida, Shirley conseguiu defender suas ideias. Foi uma mulher a frente de seu tempo. Lutou pelo preconceito contra indivíduos de cor de pele negra, portanto, menos privilegiados nos Estados Unidos. “Eu quero que a história se lembre de mim… não como a primeira mulher negra a ter feito uma oferta pela presidência dos Estados Unidos, mas como uma mulher negra que viveu no século 20 e que ousou ser ela mesma. Eu quero ser lembrado como um catalisador para a mudança na América”.

Aos 80 anos, Shirley Chisholm deixou o mundo, no dia 1 de janeiro de 2005, em Ormond Beach, cidade da Flórida, em decorrência de vários Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs). Seu corpo foi enterrado no Forest Lawn Cemetery, na cidade de Buffalo, em Nova Iorque.

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