Colunas Covid-19

O trabalho doméstico e seu resquício colonial

Em uma live com a atriz Regina Casé, 67, o nutricionista Daniel Candy, 35, (marido da cantora baiana Ivete Sangalo, 48), relatou que sua família tinha contraído o Covid-19 e que o vírus tinha sido transmitido pela sua cozinheira. Segundo ele: “O Covid-19 chegou por uma funcionária, a cozinheira, esse lance da funcionária ficar aqui e ir para outro lugar, folgar”.

No momento da fala, houve um nítido desconforto por conta de Regina Casé [que interpretou a trabalhadora doméstica Valdirene no filme Que horas ela volta? (2015)]. Porém, o comentário passou batido, sem nenhuma intervenção no momento e nem declarações, repudiando a fala depois. Talvez porque a declaração foi interpretada como uma “colocação equivocada”.

Após o “equívoco”, Daniel foi às redes sociais e pediu desculpas pela declaração, como todas as pessoas brancas que querem manter o lugar de pessoa do bem que não quis fazer nada por mal. No pedido de desculpas, o rapaz afirma: “Eu falei que a Covid-19 veio através da cozinheira. O meu grande erro foi ter falado isso. De forma alguma eu quis culpar ela. Eu não posso afirmar que foi ela, então, eu deveria ter falado que eu achava que veio dela”. Durante o pedido de desculpas, o marido de Ivete também relata que a cozinheira está sendo “cancelada” pelas pessoas e que a vizinhança começou a atacá-la depois dessa acusação feita.

São tantos problemas nessas declarações que eu fico sem saber por onde começar. Pela minha análise, a culpabilização da cozinheira em relação a transmissão do Covid-19, além de apresentar uma manifestação violenta a todas as trabalhadoras domésticas, se configura uma narrativa racista e que remonta o processo de Colonização do Brasil (1500-1815). E aqui, eu explico o porquê.

A culpa é da empregada

Durante o período de Escravização no Brasil (1535-1888), a subjetividade dos negros e negras foram construídas a partir do olhar branco, na qual atribuía ao ser negro aspectos ligados à preguiça, insolência, desobediência, malandragem, vadiagem, marginalidade, entre outros. Éramos vistos como uma mercadoria que necessitava de vigilância, pois não éramos confiáveis, acreditava-se que tínhamos uma natureza subversiva e perigosa.

Qualquer coisa que acontecia na Casa Grande, a culpa eram das cozinheiras, criadas, amas de leite ou alguma outra mulher negra escravizada que era explorada no ambiente da Casa Grande. Se o senhor explorasse sexualmente as mulheres, a culpa também eram delas, por serem fogosas e enfeitiçar os senhores.

Esse tipo de desconfiança que gera a culpabilização ainda se torna presente nos dias de hoje, pois, ainda, somos vistos como potenciais criminosos, preguiçosos e insolentes. Se pensarmos nos sub-empregos, podemos perceber que a grande maioria é ocupado por pessoas pretas, e por isso, possuem um olhar enraizado de desconfiança e discriminação.

Foto: Ketut Subiyanto/Pexels.

Quem nunca ouviu falar que não se pode deixar os pedreiros sozinhos se não a obra não anda? Devido à ideia de que são preguiçosos, quem nunca ouviu que os agentes de portaria não fazem o trabalho direito? E a declaração de que era necessário esconder tudo dentro de casa, pois as trabalhadoras domésticas poderiam roubar?

Pois bem… nessas horas, só se tem um lado da história, pois poucos querem ouvir o outro lado. Às vezes, esse lado é silenciado e coagido, ou então não quer falar por medo das consequências. Vocês acham que é coincidência o fato de não ter sido veiculado nenhuma declaração da cozinheira que trabalha na casa de Ivete?

No final, a palavra do patrão é a que importa. Por isso, a culpabilização da cozinheira se torna uma ferramenta tão eficaz de não-responsabilização (que, no caso, foi em relação a transmissão do Covid-19). A culpa do outro automaticamente desresponsabiliza quem acusa, pois existe todo um processo histórico e social que associa pessoas negras a esses comportamentos.

Mesmo que Daniel não tivesse acusado ninguém, poderiam surgir questionamentos do tipo “pode ter sido a empregada doméstica ou cozinheira”, pois são as únicas pessoas passíveis de desconfiança. Quem desconfiaria da bondade, honestidade e humanidade de uma família branca? E de um homem branco?

A bondade do homem branco

O processo de Colonização no Brasil ocorreu não apenas dentro de uma perspectiva territorial, mas também, cultural, política econômica e subjetiva. Por mais que o homem branco colonizador tenha feito o povo preto e indígena sangrar, muitos de nós temos a dificuldade em vê-los enquanto assassinos e criminosos. Mas por que isso acontece?

Durante muitos anos, só uma história foi contada, a do colonizador. Então, os territórios conquistados com muito sangue, tornam-se territórios descobertos; a escravização sangrenta do povo negro e indígena, torna-se um modelo econômico importante para o desenvolvimento da época, as lutas históricas por liberdade desses povos, se torna o olhar benevolente do branco em libertar povos tão oprimidos, e a colonização violenta se torna a domesticação de um povo primitivo que andava sem roupas e cultuavam demônios. No final das contas, a construção do homem branco é pautada na negação das violências praticadas e no heroísmo salvador.

Pintura de Jean Baptiste Debret (1768-1848). Foto: Reprodução.

Com a estruturação do racismo no mundo contemporâneo, a brancura da pele foi se tornando cada vez mais símbolo do belo, do bem-sucedido, da honestidade e da pureza. Tudo isso em detrimento de uma visão das pessoas negras que até hoje é ligado aos estereótipos ruins figura do feio, devassa, criminoso, pecaminoso, lascivo, mal carácter e sujo. Dessa forma, quando qualquer figura branca está relacionada aos atos de criminalidade, subalternidade ou discriminação, ocorre uma grande dúvida sobre a possibilidade de ser verdade: “Como assim aquela pessoa branca fez isso/está nessa condição?”.

Muitas pessoas não conseguem conceber a possibilidade de um branco cometer um crime hediondo, ou de cometer atos racistas, ou até estar em condição de miséria. Quando essas possibilidades se tornam reais, a comoção é geral, querem saber o porquê essas pessoas brancas estão naquela situação, criam motivos para que o crime cometido seja justificável. Ou então, apelam para o discurso da não-intencionalidade (Como se a pessoa fosse tão branca boa, que não pudesse ter a intenção em fazer algum mal). “Ele não quis fazer isso”, “Não foi a intenção”, “Ele é tão bom”, “Merece uma segunda chance”, “Todo mundo erra”.

E foi assim que aconteceu com o marido de Ivete, após declarações sobre ter sido infectado pelo Covid-19 através da sua cozinheira. Muitos disseram que não foi a intenção e que ele é um homem bom. É só dar uma olhada nos comentários da live que ficou salva em uma das suas redes sociais, as pessoas dizendo que ele não teve a intenção de falar aquilo, que as pessoas estavam interpretando mal, que estavam de mimimi, que ele não tinha falado nada demais.

Por mais que muitas pessoas tenha se manifestado contra o discurso racista do nutricionista, a benevolência do homem branco continuou intacta. Nada mudou na vida dele, não se responsabilizou pelo o que disse e deu aquelas desculpas que não servem para nada. No entanto, a cozinheira da família (que não teve seu nome revelado) tem sofrido ataques por parte da vizinhança e de muitos internautas.

Explorar até a última gota de sangue

Quando penso sobre os impactos da colonização à comunidade negra no Brasil, sempre me vem a desumanização, que considero um dos elementos mais nocivos na nossa construção identitária, cultural e política. No período colonial, a Igreja Católica declarava que as pessoas negras eram seres sem alma e considerava que nosso corpo era impuro, lascivo e dotado de pecado. Desta forma, ele não poderia alcançar o reino do céu. Durante muito tempo, esse tipo de discurso justificou a escravização e as diversas violências, cometidas contra negros e negras, no qual eram vistos como mercadorias sem qualquer senso de humanidade.

Pintura de Jean Baptiste Debret (1768-1848). Foto: Reprodução.

Nos dias de hoje, a escravização moderna pode ser vista de diversas formas e como eixo central da exploração está a desumanização dos corpos negros, compreendendo que aquele corpo ali é para servir, sem folga ou descanso, mesmo que esse corpo coma na mesma mesa dos patrões. Durante a declaração da live, fica perceptível que às folgas concebidas à cozinheira se mostra um problema, pois é a partir dessas folgas que a cozinheira se infectou e colocou em risco sua família.

Nessa narrativa apresentada, eu posso sentir aquela vontade do retorno ao quarto de empregada sabe? Aquele fetiche colonial de serventia, que se expressa no fardamento das trabalhadoras domésticas, como símbolo de “status”, posse e poder sobre o corpo. Aquela sensação de ter a trabalhadora a todo momento para atender todas as suas vontades. Não é à toa que durante o pedido de desculpa, Daniel chama a trabalhadora de “minha cozinheira”, como se ela fosse objeto de posse.

Foto: Ketut Subiyanto/Pexels.

Não queremos apenas desculpas

Em relação a esse episódio envolvendo Daniel Candy, a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (FENATRAD) emitiu uma nota se posicionando contra as declarações do nutricionista. (Nota da FENATRAD sobre declarações de Daniel Cady, responsabilizando a trabalhadora doméstica pela contaminação por Covid-19 da sua família). Segundo o documento, esses discursos “contribuem para discriminações, violações de direitos e taxa de desemprego que têm marcado a vida e o cotidiano da categoria desde o início da pandemia”.

A Federação ainda aponta que o simples pedido de desculpas, apresentado por Daniel, não são suficientes frente ao dano que as suas declarações causaram às mais de 6,4 milhões de trabalhadoras domésticas, que são em maioria mulheres pretas, chefes de família e moradoras de periferia. Ao final da nota, a FENATRAD exige “que o poder público tome as providências cabíveis para reparar a discriminação contra a categoria em razão de tais declarações”.

Nós já estamos cansados e cansadas desse tipo de desculpas que não responsabiliza ninguém e nunca é uma vez só; as mesmas pessoas estão sempre se desculpando e reincidindo no erro. Por isso, precisamos cobrar medidas concretas de reparação aos danos e violências manifestadas sobre nós. Não dá para apenas dizer que errou e seguir o baile como se não tivesse causados danos a um grupo de pessoas que, diariamente, são violentados(as) e possuem seus direitos negados.

A declaração do nutricionista não foi apenas individual, pois ela representa o discurso do colonizador; de quem deseja que o sistema racista, classista e patriarcal permaneça para atender seus anseios coloniais de subserviência e poder. Mas, aqui do outro lado, estamos resistindo e lutando enquanto povo preto organizado, nos posicionando e cobrando a todos aqueles que ainda acham que ainda estão na Casa Grande.

Viva ao povo negro, viva à luta das trabalhadoras domésticas!

Foto de capa: José Cícero da Silva/Agência Pública.

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Ouça o episódio #11 – Os impactos da pandemia nas trabalhadoras domésticas:

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