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Quando bailarinas negras vão usar sapatilhas do seu tom de pele no Ceará?

Atualizado às 00h42 do dia 13/02/2021

Quem me conheceu recentemente pode não saber, caso eu não comente sobre, mas a minha primeira opção de carreira era ser bailarina clássica. Por algumas razões no meio do percurso, eu decidi parar de tentar e ir em busca da minha segunda opção: ser jornalista. Há uns quatro anos, eu decidi parar de fazer aulas de ballet clássico e me desligar do mundo da dança. Estava fazendo mal para o meu psicológico e para os meus joelhos, confesso. Foi ali que parei.

Quando revisito minha história de vida, lembro de sempre querer o ballet nela. Comecei quando criança na escola. Vivenciei minha adolescência em meio às obrigações escolares (que só iam aumentando) e às aulas e festivais de dança. Fiz aulas em uma academia de bairro e depois em escolas grandes de ballet da cidade e na companhia de dança da faculdade. O ballet sempre esteve ali; na rotina, na mente, nas metas, nos gastos de energia, nas finanças e no coração. Era uma das maiores paixões da minha vida.

No entanto, mesmo cheia de tantas certezas em querer ser bailarina clássica, eu não tinha as mesmas certezas sobre quem eu era. E, infelizmente, comecei a ter somente aos 18 anos, quando estava no 1º ano da faculdade de Jornalismo. Ao levantar discussões em um grupo de pesquisa com uma professora branca e colegas negros, eu cheguei a conclusão de que: eu sou negra! Foi quando certos questionamentos começaram a surgir e a fazer sentido. Após entender isso.

Após desistir do ballet clássico, fui bastante feliz em aulas de dança contemporânea e nas apresentações com o apoio de um dos meus professores de ballet. Sinto falta destas aulas. Depois, em 2019, me realizei muito também com aulas de danças africanas ancestrais. Desta vez, com um bailarino e professor de dança cearense negro. Foram momentos em que eu podia ser eu mesma: um corpo negro dançando e celebrando quem é.

Mas meu mais recente contato com o ballet clássico foi quando estive passando uma temporada na África do Sul na convivência de bailarinos brasileiros (negros e brancos) que trabalhavam lá. Nessa companhia profissional de ballet, conheci duas bailarinas brasileiras negras que me inspiraram por vários motivos, entre eles: um é estar ali, consolidando uma carreira no exterior. O outro é usar meias e sapatilhas no tom de pele delas: a pele negra. Eu nunca tinha visto isso de perto antes e achei simplesmente lindo e autêntico ver quem elas eram de verdade no palco quando dançavam o espetáculo de Dom Quixote.

Após esse contato, pude vivenciar também perto de mim o nascimento de um projeto tão potente e muito necessário: o Blacks in Ballet. Uma plataforma que visa aumentar e potencializar a visibilidade negra no universo do ballet clássico no Brasil e mundo afora. E que também veio para levantar muitas questões. Ao ter contato com tantos bailarinos negros e negras, e também como ex-bailarina e jornalista, eu não poderia deixar de problematizar essas questões, mas olhando para o meu estado: o Ceará.

O que faria sentido

Para quem não sabe ou ainda não conseguiu entender a questão; quando fazemos aulas de ballet clássico, nós (os bailarinos) utilizamos meias e sapatilhas em um tom de pele claro, que se aproxima da cor de pele branca. Historicamente, foi assim. Apesar de que há alguns anos, portais de notícias têm noticiado sobre sapatilhas em tons de pele negra. Algo que eu nunca questionei antes, pois, eu achava que fazia parte do uniforme. Assim como o colan preto entre outros detalhes. Sabendo que o ballet clássico é rígido e exige muita disciplina. Então, não usar o “uniforme” seria interpretado como uma indisciplina. Assim como chegar atrasado, não ter um coque bem feito etc.

Ao tentar entender porque algumas discussões importantes ainda não chegaram com força no universo do ballet cearense, me vem questionamentos, como: “Por que bailarinas negras não usam meias e sapatilhas do seu tom de pele no Ceará?”. Por quê? Eu gostaria muito de entender tudo isso. Muito mesmo. Apesar de saber que as questões são muito mais profundas do que parecem.

No último sábado, estava conversando com um alguém que me perguntou por quantos anos eu tinha feito ballet. Eu não soube responder a pergunta a rigor já que o ballet sempre fez parte da minha vida. E ao refletir um pouco sobre isso durante a conversa, eu acabei dizendo a esta pessoa: “Eu queria voltar a fazer aulas de ballet, mas usando sapatilhas e meias no meu tom de pele”. Só assim faria sentido pra mim. Mas até onde eu sei, nenhuma escola de ballet ainda aderiu a esse avanço aqui no Ceará.

É uma pena que nunca me ensinaram e eu nunca questionei sobre isso nas tantas aulas de ballet clássico que fiz aqui no Ceará. E talvez seja também uma pena que algumas questões sobre o ballet – a questão racial, por exemplo – eu fui aprender fora do Ceará, com bailarinos brasileiros, negros e que trabalham em companhias no exterior.

De todo modo, a pergunta que fica é apenas simples e direta: Quando bailarinas negras vão usar meias e sapatilhas do seu tom de pele no Ceará? Quando as escolas de ballet do Ceará vão olhar para essa questão? Quando?

Foto de capa: An Rong Xu/The New York Times.

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