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É mais fácil se relacionar afetivo-intimamente com mulheres brancas?

*A palavra afetivo-íntima é uma tentativa de substituir a palavra afetivo-sexualmente no esforço de incluir relações com pessoas assexuais estritas, no qual não há desejo em manter relação sexual.

Esses dias, eu assisti a um vídeo no qual um criador de conteúdo negro trás a seguinte indagação: “Então quer dizer que homens pretos estão preferindo mulheres brancas para se envolver porque é o mais fácil?”. Segundo ele, se relacionar com mulheres negras seria mais complexo, porque construir relações contracoloniais, com duas pessoas ali marcadas pelo racismo requer um grau de dificuldade e complexidade muito grande.

Primeiramente, eu gostaria de dizer o quanto fico feliz de assistir cada vez mais homens negros falando sobre si, colocando as caras, sabe? Pois, por muitos anos, ficamos em silêncio sobre falar sobre nós a partir de nossas próprias vivências, sentimentos e histórias. Mas, gostaria de trazer aqui algumas contribuições para essa discussão.

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A facilidade é para qual perfil de homem negro?

Quando pensamos em que tipo de homem as mulheres brancas se interessam, logo me vem o estereótipo do “pretinho do poder” (homem forte, alto, cabelo baixo e com bom acesso socioeconômico). Para que nos tornemos interessantes para a branquitude, precisamos acumular algum capital dentro do mercado dos afetos (Já escrevi um texto falando sobre esse mercado), seja ele financeiro, estético, educacional, artístico ou outros. Sabe aquela conversa de que é preto mas é médico? É preto mas tem dinheiro? É preto mas pode oferecer algo que tenha uma relevância na sociedade capitalista? É isso.

É necessário algo para além de ser homem negro, o que já mostra que, antes da “facilidade” em se namorar uma mulher branca, é necessário que a mulher branca se interesse em namorar um homem negro, o que só vai acontecer com perfis bem específicos. Se a gente fala sobre se relacionar sexualmente, abrimos aí o campo da hipersexualização dos nossos corpos, o que acaba sendo mais comum. Aí vem aquelas falas de que “eu adoro homem negro”, que poderia ser traduzido por “eu tenho fetiche pelo homem negro”. E nesse caso, o fetiche não é sobre afeto, amor e cuidado, é sobre a autosatisfação sexual a partir do que fantasio desse outro.

Lembro de antes de viajar para Curitiba (PR), algumas pessoas terem falado que homens negros lá faziam sucesso. Eu, na compreensão do que era o racismo naquela época, desconfiei. E quando estava em uma boate sertaneja, senti a força da rejeição, fui sumariamente ignorado enquanto pessoa, não estou nem falando sobre possibilidade de flerte ou algo do tipo. Talvez um homem negro, estudante de psicologia, gordo, nordestino e sem barba não faria muito sucesso no mercado dos afetos. Não sei se aconteceria comigo a mesma coisa, como é o caso de Léo Santana, Rafael Zulu, Michael B. Jordan ou Lewis Hamilton fossem para a balada sertaneja em Curitiba.

Já para a branquitude, basta ser branco para ser desejado, e isso para mim ficou muito nítido quando um irmão de santo me falou que estava feliz por estar namorando uma mulher branca, pois ele sempre quis namorar uma mulher branca”. Ou seja, não precisa ser atriz, atlética, bem-sucedida ou doutora; ser branca já bastava para ser objeto de desejo no que se refere a construção afetiva-íntima*.

Quais tipos de facilidade existem na relação com mulher branca?

Nesse aspecto, eu avalio que, depende muito do homem negro que está se relacionando com essa mulher. Se as relações etnico-raciais e suas tensões não forem questões importantes a serem refletidas, analisadas e conversadas para ele, talvez haja uma percepção de facilidade mesmo. Se não houver um desejo de construção de relacionamento com pessoas pretas a partir de uma perspectiva política; que compreende historicamente o amor entre pessoas negras, se relacionar com uma mulher branca pode se tornar mais fácil de fato.

Caso essa mulher branca seja colocada no pedestal e haja um sentimento de privilégio, desse homem negro, por ela aceitar se relacionar com ele, também pode haver a percepção de facilidade, pois as tensões (raciais, de gênero e relacionais) da relação podem ser vistas como ‘barreiras menores’, frente a sorte grande de ter uma mulher branca ao lado. 

Às vezes, essa facilidade vem da pouca necessidade de investimento psíquico em olhar para si, para suas feridas e seus traumas que podem não se assemelhar com os da mulher branca, pois não há uma identificação de gênero nem de raça. Lembro de um conversa que tive com meu amigo Osiyallê Rodrigues em uma festa onde avistamos muitos homens negros acompanhados de mulheres brancas. Começamos a construir uma ideia de como pode haver um suposto conforto psíquico para esses homens em se relacionar com alguém que não trará questões voltadas à negritude, ou seja, não será necessário lidar com questões complexas e delicadas deles e nem da outra pessoa. 

A ideia é que as minhas dores, frustrações e tensões da vida eu resolvo sozinho; pois sou “homem”, e ela não me trará a carga de ser uma mulher negra no Brasil, o que poderia me mobilizar para refletir e compreender questões sobre mim. Já aqui podemos compreender como nós, homens, fomos construídos em uma subjetividade de autoproteção e segurança; então, não há potência e grandiosidade de acessar questões importantes sobre a minha subjetividade. Então, qualquer tipo de acesso tentará ser repelido, e isso é muito cruel. Dito isso, fico pensando: qual seria o preço pago por esse suposto conforto?

Qual o preço a ser pago?

Seria o preço das violências raciais? O preço do desconforto frente às tensões raciais envolvendo a lógica racista da branquitude? O preço de não ser acolhido e reconfortado quando as feridas raciais forem abertas? O preço do sofrimento mental? Ou teriam outros preços a serem pagos?

Porque apesar de tentar não lidar com as tensões etinico-raciais dentro e fora da relação, elas vão aparecer. Não é porque não se vê ou não se quer ver essas tensões, que elas não existem, não falem, não gritam, não mexam com o corpo e não adoeçam. Nisso eu fico pensando no cenário que as pessoas entram nas relações sem uma compreensão do que é estar em uma relação com mulheres brancas e dos atravessamentos e consequências que isso pode gerar.

Já no cenário em que há consciência racial das duas partes, a compreensão dos atravessamentos de raça, gênero, classe e outras intersecções, será difícil encontrar essa suposta facilidade. Pois, compreendemos que as nossas feridas e os nossos traumas foram forjados nos processo de colonização, de violência racial, gênero, classe e que estaremos nos relacionando afetivo-intimamente com uma mulher branca que simboliza essas violências. Eu só consigo enxergar como essa relação será complexa. 

Não consigo visualizar como essa relação com mulheres brancas seria mais fácil, dentro do campo estrutural, do que se relacionar com mulheres negras. Porque no que tange às interrelações amorosas, podemos pensar em milhões de fatores específicos que podem atravessar um relacionamento. Dito isso, também não posso deixar de pontuar que relacionamento entre pessoas negras também requer investimento psíquico, escuta e acolhimento, pois as violências coloniais vão atravessar de forma visceral a relação. Porém, a partir de uma outra perspectiva do que o relacionamento interracial (entre pessoas negras e brancas). Mas esse assunto vou deixar para um outro momento.

Foto de capa: Imagem gerada por Inteligência Artificial (IA) no Gemini.

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