Eu sei que essa conversa é indigesta. Sei que muita gente está cansada de ouvir sobre vi0lência contra mulheres, abus@, feminicídio, misoginia, exploração s3xual e m@rte. Mas, se você tem acompanhado as últimas notícias no Brasil e no mundo, sabe que os casos estão pipocando por todos os lados. E cada vez mais perto. Não estamos diante de episódios isolados, monstruosidades ou exceções. Estamos diante de uma cultura que organiza desejo, poder, vi0lência e consumo como se o corpo das mulheres fosse território disponível a serviço do outro…
Na última semana, veio à tona uma denúncia aterrorizante sobre uma rede chamada de “academia do est#pro”. Segundo reportagens, grupos de homens circulavam em ambientes digitais trocando orientações sobre como abus@r de mulheres próximas, inclusive companheiras, e como escapar da responsabilização. O caso envolve um site com mais de 62 milhões de acessos e milhares de vídeos associados a essa forma de vi0lência.

Se essa notícia não te fez perder o sono, eu não sei mais o que faria. Milhares de homens do mundo inteiro estavam buscando formas de machucar suas companheiras e compartilhar isso… Estamos falando de uma pedagogia da vi0lência. De espaços onde homens não apenas consomem imagens de mulheres em situação de vulnerabilidade, mas aprendem, compartilham, monetizam e validam práticas de dominação.
E, no mesmo cenário, vemos casos, como o do cantor D4vd, nome artístico de David Anthony Burke, acusado em conexão com a m@rte de Celeste Rivas Hernandez, uma menina de 14 anos. Promotores afirmaram que encontraram TONELADAS de material de abus@ s3xual infantil em seus dados. Que tipo de cultura forma homens capazes de desejar, capturar, explorar e destruir meninas?
Também vimos, nos últimos anos, como escândalos envolvendo figuras poderosas, como Epstein e “Diddy”, revelam a articulação entre dinheiro, fama, masculinidade, impunidade e acesso ao corpo de mulheres, meninas e pessoas vulnerabilizadas. Os casos são diferentes juridicamente, mas ajudam a iluminar uma mesma estrutura em que o poder econômico e simbólico é usado para controlar corpos.
E há ainda a hipocrisia social! Grupos políticos e religiosos que discursam publicamente contra direitos s3xuais, contra pessoas LGBTQIAPN+, contra mulheres trans e contra qualquer debate honesto sobre gênero e s3xualidade, muitas vezes, convivem com práticas privadas completamente contraditórias. Em 2025, George Arison, CEO do Grindr (aplicativo gratuito voltado para a comunidade LGBTQIAPN+), confirmou que houve um aumento significativo no uso do aplicativo em Milwaukee durante a Convenção Nacional Republicana de 2024, embora tenha negado os boatos de que o tráfego teria derrubado os servidores.
No Brasil, essa contradição também aparece de forma brutal: o país segue como o que mais mata pessoas trans e travestis no mundo. Ao mesmo tempo em que levantamentos públicos de grandes plataformas adultas apontam crescimento expressivo no consumo de conteúdos trans e LGBTQIAPN+. O ponto aqui não é moralizar o desejo. O ponto é observar a contradição entre discursos públicos de ódio e consumos privados de corpos marginalizados, que são justamente os corpos mais atacados por esses mesmos grupos. Percebem?
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Normalização da violência
A produção do desejo vi0lento está intimamente ligada à agressão dos mesmos grupos sociais que já são mais vulnerabilizados: mulheres, meninas, pessoas trans, pessoas racializadas (negras), pessoas pobres, corpos lidos como disponíveis, descartáveis ou consumíveis.
Nos últimos anos, parte importante do discurso sobre liberdade feminina passou pela reivindicação do s3xo, do corpo, do prazer e da autonomia. Essas são pautas legítimas, extremamente necessárias e historicamente fundamentais. O problema é que o patriarcado tem uma capacidade enorme de capturar nossas linguagens de liberdade e devolvê-las como mercadoria.

Caímos numa cilada quando confundimos liberdade s3xual com a obrigação de performar disponibilidade. Quando confundimos autonomia com exposição compulsória. Quando confundimos escolha com mercado. Quando fingimos que todas as escolhas acontecem em condições iguais, como se classe, raça, gênero, idade, vi0lência doméstica, pobreza e falta de oportunidades não moldassem profundamente aquilo que chamamos de “opção”.
Na dinâmica dominante da p0rnografia industrial, mulheres aparecem muitas vezes como corpos sem voz, sem interioridade, sem história, sem desejo próprio. Corpos a serviço do olhar do outro. Corpos que suportam. Corpos que obedecem. Corpos que existem para serem acessados e explorados. E isso não é neutro.

Acompanho vários rapazes que dizem que não são viciados, mas não conseguem passar uma semana sem… Enquanto isso, vários estudos vêm demonstrando associação entre o consumo de p0rnografia, especialmente p0rnografia vi0lenta, e atitudes mais permissivas em relação à agressão s3xual, objetificação e comportamentos prejudiciais contra mulheres. Também se discute como esse consumo pode intensificar o vício, levando a situações deploráveis para os próprios homens. O que precisamos dizer, com coragem, é que existe uma ecologia cultural de formação do desejo. E essa ecologia importa!
O que uma sociedade consome em massa também educa. O que é repetido vira imaginário. O que é monetizado vira indústria. O que é naturalizado vira prática. E, quando a vi0lência contra mulheres se transforma em estética, entretenimento e lucro, precisamos parar de fingir que isso não tem consequência.
Também precisamos falar da glamourização recente do “job”, das “minas do Only” e de uma ideia rasa de empoderamento que, muitas vezes, ignora as condições materiais da vida. Será que tantas mulheres estariam nesses espaços se tivessem acesso real a trabalho digno, segurança financeira, moradia, cuidado, educação e proteção social? Será que podemos chamar de liberdade aquilo que, para muitas, nasce da precariedade?
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Dominação
A pergunta não é moralista. A pergunta é política. Porque s3xo e poder sempre caminharam juntos. O controle do corpo das mulheres sempre foi uma tecnologia de dominação. A novidade é que agora essa dominação também é algorítmica, monetizada, personalizada, acessível 24 horas por dia e vendida como entretenimento na internet.

Não é à toa que, ao mesmo tempo em que cresceram os debates sobre não monogamia, poligamia e novas formas de relações, também cresceram as perguntas sobre desejo, desigualdade e poder. Se esse desejo é fabricado pelo olhar do outro, até que ponto ele é escolha? Até que ponto ele reflete também o próprio desejo machista que, muitas vezes, aprendemos a aceitar? E talvez não seja por acaso que agora também exista um levante de mulheres celibatárias por opção de desejo.
Parte da minha aversão a esta era de pós-verdade vem justamente do fato de que estamos perdendo a capacidade de nomear a realidade. Tudo vira opinião, gosto pessoal, liberdade individual, escolha privada. Mas há dados. Há pesquisas. Há denúncias. Há vítimas. Há padrões. Há uma indústria inteira lucrando com a transformação da dor, da submissão e da vi0lência em desejo.

Precisamos recentralizar o debate com base em dados e evidências. Não para produzir pânico moral, mas para encarar a realidade sem discursos levianos. Vejam que não é sobre censurar o s3xo. É sobre perguntar que tipo de s3xualidade está sendo fabricada quando o prazer de uns depende da desumanização de outras.
Até quando vamos tratar a p0rnografia industrial como uma questão privada, enquanto seus efeitos atravessam relações, crimes, subjetividades e formas de vi0lência?
Até quando vamos fingir que a m@rte das mulheres começa apenas no ato final, e não em todo o caminho simbólico que ensina que nossos corpos existem para servir, calar, suportar e desaparecer? Eu não quero mais naturalizar isso. Não quero mais que a dor das mulheres seja tratada como ruído de fundo da vida social.
Não quero mais que meninas, mulheres e pessoas vulnerabilizadas sejam transformadas em conteúdo, prova de masculinidade, moeda de troca ou fantasia de dominação. Porque nenhuma liberdade pode ser construída sobre a desumanização de outras mulheres e de seus corpos.
*Texto publicado originalmente no Instagram de Jade Lôbo
Foto de capa: Darina Belonogova/Pexels.
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É pesquisadora, ativista e escritora baiana do povo Tupinambá. É também Doutoranda em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Certificada pelo Afro-Latin American Research Institute at Harvard University, atua nos campos das relações étnico-raciais, cosmopolíticas afroindígenas e direitos dos povos tradicionais. É autora do livro “Para Além da Imigração Haitiana” (2020), criadora da Revista Odù, pesquisadora associada à ABPN e ao Núcleo de Estudos Afro-Latino-Americanos (UNILA). Atua em pesquisas e projetos voltados a povos e comunidades tradicionais, desastres socioambientais e reparação de danos, com experiência na elaboração de laudos técnicos e iniciativas socioambientais. Nas redes sociais (@jadealobo), apresenta documentários, webséries e podcasts que atua como pesquisadora.




