Como a homofobia e o machismo moldam desde cedo os corpos pretos afeminados – e por que ainda assim seguimos dançando
Existe um bicho que a gente aprende a temer antes mesmo de entender o mundo: a lacraia. Pequena, rápida, cheia de pernas que parecem nunca parar; ela surge das frestas, dos cantos escuros, dos lugares onde a luz não costuma morar. Dizem que é venenosa. Dizem que é perigosa. Dizem que, se aparecer, é melhor esmagar.
Talvez por isso o nome tenha carregado, por tanto tempo, um peso que não era só dele.
Dia desses, a palavra “Lacraia” atravessou uma roda de conversa como quem abre uma janela. Não veio como ofensa, nem como riso torto. Veio como memória, como referência, como um brilho inesperado no meio da fala. Curioso perceber como um nome que antes feria, hoje pode aquecer. Como aquilo que já foi usado para diminuir, agora também pode significar alegria, presença, história.
Crescer sendo uma bicha preta afeminada, nos anos 2000, era também ser chamado de lacraia.
Naquele tempo, a Lacraia era um fenômeno. Travesti, artista, dançarina e presença constante na televisão, nos palcos, nas festas, no imaginário popular. Ao lado de MC Serginho, estourou com “Vai Lacraia”, uma das músicas mais tocadas durante as Olimpíadas de 2004, em Atenas (Grécia), atravessando fronteiras, idiomas e classes. Era impossível não saber quem ela era. E, ainda assim, era impossível para muitos aceitá-la.
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Porque havia um paradoxo cruel: a Lacraia fazia rir, fazia dançar, fazia vibrar. Era sinônimo de alegria. Mas ninguém queria ser a Lacraia.
Para meninos pretos, sobretudo os afeminados, havia um pacto silencioso sendo imposto: você pode até admirar, mas não pode se parecer. O medo não era da lacraia enquanto animal, nem da artista enquanto figura pública. O medo era da comparação. Ser chamado de Lacraia era ser colocado num lugar de ridículo, de desumanização, de algo que pode ser celebrado à distância, mas nunca acolhido de perto.
E esse processo começa cedo. Muito cedo.
– “Fala como homem.”
– “Para de rebolar.”
– “Cuidado com essas mãos.”
– “Isso é coisa de mulher.”
A masculinidade, para homens pretos, não é apenas uma expectativa – é uma cobrança constante, quase uma vigilância. Como se cada gesto precisasse provar algo, como se o corpo estivesse sempre em teste. Não basta existir: é preciso performar uma versão aceitável de homem. E qualquer desvio, qualquer suavidade, qualquer dança fora do compasso esperado vira motivo de correção.
Microagressões que não vêm com esse nome, mas que se acumulam como pequenas doses de veneno. A infância vira um campo de treinamento. Cada passo é calculado. Eu mesmo já contei os meus, tentando apagar o balanço do corpo, como quem tenta caber numa moldura apertada demais.
Em uma sociedade patriarcal, abrir mão da masculinidade é visto como abrir mão de poder. Como aponta Leandro Karnal em suas reflexões sobre preconceito, aquilo que foge da norma dominante não apenas incomoda – ameaça estruturas. E o que ameaça, costuma ser reprimido.
Por isso, a violência contra gays pretos afeminados é atravessada por camadas. Não é só homofobia. Não é só racismo. É a recusa em aceitar que um corpo negro não queira, ou não consiga, sustentar a performance de masculinidade que lhe foi imposta como destino.
Nem mesmo o afeto escapava desse controle. MC Serginho também sofreu homofobia por demonstrar carinho e lealdade à Lacraia. Como se amar alguém como ela fosse, por si só, um desvio. Como se existissem corpos destinados ao riso, mas não ao amor.
E, ainda assim, havia algo que resistia.
Segundo relatos de sua própria família, a Lacraia encontrava acolhimento dentro de casa. Um território raro, onde não precisava se esconder. Isso muda tudo. Porque, quando o mundo inteiro tenta te empurrar para as frestas, basta um espaço de luz para que você continue.
Hoje, o nome que antes feria também cura. Lacraia já não é só o insulto que tentaram fazer dela. É também símbolo de uma travessia.
Ressignificar a lacraia é entender que nunca fomos o erro da história.
Se antes nos ensinaram a temer esse nome, hoje a gente aprende a habitá-lo de outro jeito: com orgulho, com memória, com corpo inteiro. Porque a lacraia nunca deixou de existir. Ela só encontrou um jeito de atravessar as frestas até virar luz.
Foto de capa: Reprodução.
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Comunicólogo formado em Comunicação Social pela Universidade 7 de Setembro (UNI7). Sua prática atravessa escrita, pesquisa e produção cultural, com foco nas narrativas territoriais e periféricas construídas a partir das experiências nas comunidades. É do bairro Moura Brasil, em Fortaleza (CE), território que atravessa e fundamenta sua forma de ver, pensar e produzir. Atua como pesquisador na Kuya – Centro de Design do Ceará e possui experiência em redação, pesquisa e crítica de arte em diálogo com a Pinacoteca do Ceará. Integra iniciativas como o Rede Oitão, jornal comunitário do bairro Moura Brasil, além do Site Negrê, contribuindo para a circulação de narrativas sobre cultura, território e memória no Nordeste.




