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Não votou, anulou ou votou em branco? Esse “tanto faz” também tem consequência.

Porque não escolher também produz um resultado. E, desta vez, é importante olhar para o que está em jogo. Conhece alguém que não votou no primeiro turno? Mostre este texto para ele/a. Não para dar bronca. Mas para lembrar uma coisa simples: a eleição vai acontecer com ou sem a sua vontade de participar dela.

Em 2026, mais de 33 milhões de brasileiros não foram votar. Outros milhões apertaram BRANCO ou ANULO. Mas existe uma diferença importante entre não gostar de nenhum candidato e acreditar que isso faz os candidatos desaparecerem. Não faz. Voto branco não vai para ninguém. Voto nulo não vai para ninguém. E nenhum dos dois anula a eleição. No fim, alguém será eleito.

E esse alguém vai decidir sobre salário, emprego, saúde, educação, moradia, cultura, segurança, direitos trabalhistas e orçamento público. Inclusive sobre os direitos de quem decidiu não votar. É aqui que entra a parte incômoda. Lula e Flávio Bolsonaro não representam o mesmo projeto de país. Não é preciso gostar de Lula para reconhecer isso. Nem transformar política em torcida organizada.

Basta olhar para a história. Nos primeiros governos Lula, o Brasil criou o Bolsa Família, ampliou o acesso ao ensino superior, valorizou o salário mínimo, criou milhões de empregos formais e expandiu políticas de inclusão social. Foi também nesse período que ganharam escala políticas, como ProUni, Fies, expansão das universidades e institutos federais, além do Minha Casa Minha Vida, criado no segundo mandato.

Não foi um governo perfeito. Nenhum foi. Mas existe uma coisa chamada legado. E o legado importa. Porque, quando Lula voltou ao Planalto, em 2023, uma parte considerável dessas políticas voltou junto. Bolsa Família. Minha Casa Minha Vida. Mais Médicos. Farmácia Popular. Brasil Sorridente. Políticas de combate à fome. Valorização real do salário mínimo. Pé-de-Meia. Mais investimentos em educação, saúde e assistência social.

Não estamos falando apenas de nomes bonitos de programas. Estamos falando de coisas que entram na vida concreta das pessoas. É o remédio. A comida. A casa. A universidade. O emprego. O dinheiro que chega ao fim do mês.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

E há outra dimensão que interessa especialmente a quem lê o Negrê. A igualdade racial voltou a ser política de Estado. O Ministério da Igualdade Racial foi recriado. O governo estabeleceu reserva mínima de 30% para pessoas negras em cargos e funções comissionadas do Executivo federal. Criou e ampliou políticas voltadas às comunidades quilombolas. Retomou ações de enfrentamento ao racismo e de proteção a populações historicamente marginalizadas. Isso também é política. E isso também pode mudar. Porque direito não é patrimônio de família. Direito é construção política.

Agora olhe para o outro lado. Flávio Bolsonaro apresenta um projeto que fala em reduzir ministérios e gastos públicos, retomar privatizações, flexibilizar relações de trabalho e diminuir o tamanho do Estado. Seu plano também propõe reduzir a maioridade penal, ampliar o encarceramento e classificar facções como organizações narcoterroristas. Pode parecer distante. Não é.

Porque o Estado que Flávio pretende reduzir é justamente aquele que oferece SUS, universidade pública, assistência social, fiscalização trabalhista, políticas de igualdade racial e proteção para quem não consegue resolver a própria vida comprando tudo no mercado. E há algo ainda mais grave.

Flávio propõe mudanças profundas na relação entre os Poderes e no funcionamento do Supremo Tribunal Federal. Entre elas, estão a limitação de decisões monocráticas e mudanças nas competências da Corte. Também defende uma quarentena para ministros de Estado antes de uma eventual indicação ao STF. Isoladamente, alguém pode chamar isso de reforma institucional. O problema é olhar para o contexto.

O candidato também defende anistia para envolvidos nos ataques de 8 de janeiro e já afirmou que pretende conceder indulto ao próprio pai. E promete nomear até quatro ministros para o Supremo. Isso não é detalhe. É poder. E poder não deveria ser tratado como detalhe por ninguém. Principalmente por quem diz que “tanto faz”. Não tanto faz.

Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil.

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Você pode achar Lula velho demais. Pode não gostar do PT. Pode estar cansado de política. Pode achar que nenhum candidato representa tudo aquilo em que você acredita. Tudo bem. Mas transformar essa frustração em “os dois são iguais” é outra coisa. Porque não são.

Há diferenças entre ampliar políticas sociais e reduzir o tamanho do Estado. Entre fortalecer políticas de igualdade racial e tratar o Estado prioritariamente como máquina a ser enxugada. Entre defender a redução da jornada para 40 horas semanais sem redução salarial e apoiar uma lógica de maior flexibilização individual das relações de trabalho e menos direitos para o trabalhador. Entre preservar e ampliar determinadas políticas públicas e propor uma revisão ou extinção delas.

E há diferença, sobretudo, na maneira como cada projeto enxerga o próprio Estado e seus limites. Você não precisa votar em Lula por amor. Pode votar nele por cálculo. Por memória. Por direitos. Por sobrevivência. Por achar que, entre as duas alternativas disponíveis, uma oferece menos riscos para aquilo que você considera importante. Isso também é democracia.

Voto não é casamento. É uma escolha. E talvez seja justamente isso que muita gente esteja esquecendo. Você não precisa encontrar o candidato perfeito. Ele não existe. Precisa decidir qual projeto você consegue suportar. Porque depois do domingo, a política continua. O preço continua. O salário continua. O aluguel continua. O SUS continua. A universidade continua. A vida da população negra continua. E o presidente eleito também continuará. Por quatro anos.

Então, se você conhece alguém que não votou no primeiro turno, votou nulo ou em branco, mande este texto. Não para humilhar. Não para chamar de alienado. Não para transformar política em sermão. Mas para fazer uma pergunta que talvez seja mais importante do que “Em quem você gosta de votar?” e “O que você está disposto a colocar em jogo quando decide não escolher?”.

Porque não votar pode ser uma decisão. Anular também. Mas nenhuma dessas escolhas tira de alguém o poder de governar. O voto dura alguns segundos. As consequências podem durar quatro anos (ou mais). Por isso, no dia 25 de outubro, vamos votar?

Foto de capa: Fernando Frazão/Agência Brasil.

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