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A que(m) serve o meu corpo?

Aprendi bem cedo que precisaria atender a certos critérios físicos para ser “aceita”. Na adolescência, convivi com a necessidade de atender ao padrão de beleza da mulher (magra, esbelta, com curvas). Musculação, corrida, horas e horas de atividades físicas sem qualquer orientação profissional e dietas mirabolantes montadas com base em colunas de revista para mulheres (conceito interessante). Inicia-se a busca pelo corpo perfeito.

Pausa para falar do que seria esse perfeito: sou uma mulher negra. Somos adultizadas e hipersexualizadas ainda na infância. Uma das ferramentas mais cruéis do racismo, essa desumanização por meio do controle dos nossos corpos, remete ao passado de estupros e exposição não consentida como objetos exóticos, de desejo. O resultado direto desse processo é uma falsa exaltação de corpos pretos sexualizados, cheios de curvas e sarados: bundão, pernão, peitão. Globeleza.

Mulata exportação. Para fornicar, como citado pelo escritor Gilberto Freyre (1900-1987). E é esse o corpo que nos vendem como ideal. Curiosamente, somos levadas a buscar tudo aquilo que pode, inclusive, ser considerado vulgar com o tom de pele errado, mas que, a considerar os diversos pactos de sobrevivência, podemos lançar mão em troca de algumas migalhas de afeto social.

Corta pra 2020

Já adulta, bem ciente da necessidade de um equilíbrio mente-corpo, em busca de saúde, busco orientação de um profissional, educador físico, homem branco, provavelmente classe média, mediana. Alguns momentos foram marcantes. A surpresa em constatar alguns dados – que refletiam nada mais que um corpo funcional, com saúde; as frases: “Precisamos achar algo de ruim em você” e “Algumas recomendações dietéticas”. E o momento final: a necessidade de ressaltar que eu precisaria aumentar alguns centímetros em determinada região para que eu ficasse mais proporcional e “bonita”.

Foto: Andrea Piacquadio/Pexels.

Para aquele profissional, não era importante o meu objetivo – que sequer foi questionado – ou qual a minha relação com o meu corpo, se mudar ele seria um objetivo ou não. Saúde, em momento algum, foi um ponto levantado. O importante seria atingir um objetivo estético, e este incluía, para mim, um corpo negro, exibir alguns centímetros a mais em curvas em lugares estratégicos.

Existem várias óticas pelas quais podemos analisar todos esses pontos que trouxe acima. No entanto, quero propor uma reflexão em torno do meu corpo, do nosso corpo, do corpo preto. Questiono: a que, ou melhor, a quem serve o nosso corpo negro?

Padrões

Estamos muito acostumados a ver essa palavra ser utilizada quando se fala de estética de corpos pretos. Se é que é possível encaixar a estética preta em algum padrão – ignorando que a aceitabilidade social que essa palavra traz consigo é algo que não nos é ofertado pela sociedade de moldes ocidentais e coloniais que vivemos – qual o preço psicológico, financeiro, subjetivo que pagamos para usufruir das pequenas benesses de se enquadrar nos estereótipos que nos tornam pessoas pretas mais aceitáveis?

Foto: Anna Shvets/Pexels.

Durante a minha prática profissional, me deparo com muitas mulheres negras pairando – e adoecendo – em volta do desejo por corpos esteticamente aceitos. Queixas relacionadas ao formato – e cor! –  dos seus corpos acompanhadas de uma busca por uma solução rápida, indolor, quase que milagrosa, para um problema originado pela ideologia da branquitude. Comentários sobre grupos de antes e depois de cirurgias plásticas  – prática proibida pelo código de ética profissional, queixas acerca de manchas típicas de peles melaninadas e uma recusa e descrença quando proposta uma prática que evidencie autonomia alimentar e prática de exercícios físicos com objetivo em saúde.

O episódio com o profissional citado me levou a pensar em como somos levadas a buscar essa estética aceitável em detrimento da busca pela saúde. Nesse caso, o meu corpo não serve a mim, e sim ao ideal de corpo de uma mulher negra presente no imaginário de boa parte da nossa população. Falando de corpos negros, essa estética tem contornos característicos. Para ser uma preta aceitável, você precisa ter pernas grossas, glúteos e seios avantajados. Precisa ser sensual. Para ser um preto aceitável, você precisa ser forte, musculoso, viril. Melhor ainda se ambos tiverem traços faciais finos, os mais brancos possíveis (haja rinoplastia!). Caso fuja dessas características, a sua busca pela aceitabilidade vai ter que percorrer outros estereótipos que não os físicos.

Como resultado do processo de colonização e dominação, aprendemos a valorizar apenas o que a branquitude, enquanto poder, considera atrativo e, porque não dizer, útil. É contraditório, inclusive, que enquanto aprendemos a odiar nossos traços, cria-se um mercado de procedimentos (preenchimento labial, cirurgias para próteses de silicone em pernas, seios, glúteos com nomes bizarros como “bumbum brasileiro”, bronzeamento artificial, entre outros), vendendo características negras que em corpos brancos são aprovadas e consideradas belas.

Dá pra entender que, após anos de hipersexualização e vulgarização de nossos corpos, as características aceitáveis que tenhamos sejam as que possam facilmente nos colocar no lugar do desejo pecaminoso e nossos traços sejam considerados belos apenas em peles claras. 

Infelizmente, muitas vezes, a busca por servir ao ideal branco nos traz infelicidade, já que nunca seremos aceitos em nossa completude numa sociedade estruturada na ideia de não humanidade dos nossos corpos negros. 

Busca

É importante pontuar aqui que, se a busca pelo corpo que satisfaz a sua singularidade for aquela que busca características como as que citei acima e vier acompanhada de saúde física e mental, não existe problema algum. Não é o objetivo desse artigo problematizar corpos negros de qualquer forma, e sim nos fazer questionar uma busca adoecida por um corpo aceitável, qual o ponto de partida e chegada dessa jornada. A lógica capitalista e a facilidade com a qual abrimos mão da autonomia da nossa própria saúde propicia que a busca saudável por corpos fortes e funcionais, seja trocada por práticas perigosas e extremamente adoecedoras. 

Foto: Alex Green/Pexels.

Gosto de pensar no meu corpo enquanto ferramenta de resistência. Enquanto arma, sinto que devo nutrí-lo e fortalecê-lo, nas diversas dimensões que o compõem: mente, corpo, espírito. É esse o corpo que precisa suportar todas as violências às quais estamos submetidas diariamente.

Não foi à toa que chegamos até aqui sendo mais da metade da população brasileira. Não foi à toa que nossos ancestrais moviam-se das formas mais belas e complexas em jogadas de capoeira, rebolados, respirações e posições de yoga (sim, a dança e a yoga também são nossa ancestralidade). Nosso corpo é vivo e dessa forma deve se manter. Nosso movimento é ancestral. Também é ancestral a alimentação fora dos paradigmas capitalistas, alimentação nutritiva, fortalecedora e natural.

A valorização dos nossos corpos, independente da forma que tiverem, é estratégia de resistência quando vivemos numa luta constante para a construção da nossa autoestima enquanto povo preto. Esse processo pode (e deve!) entremear-se de cuidado e autoamor, exercícios físicos, alimentação saudável e quaisquer outros hábitos de autocuidado que você preferir. 

Uma das formas mais belas de resistir é viver plenamente, buscando saúde e autonomia, enquanto eles querem que você apenas sobreviva em meio ao apagamento, à desvalorização e ao genocídio numa busca incessante por adequação aos padrões brancos. 

O seu corpo serve a você.

Foto de capa: Lucas da Miranda/Pexels.

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