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O ciúmes enquanto instrumento de controle masculino

Antes de falar propriamente sobre o ciúmes, considero importante fazer um introdução rápida sobre a estrutura monogamia, que possui um impacto importante sobre a forma em que vivemos e de como pensamos o amor. A estrutura monogâmica não é apenas a exclusividade no relacionamento entre duas pessoas, mas sim um conjunto de práticas e valores que determinam uma forma de amar e de se estruturar socialmente, economicamente e politicamente na sociedade.

Uma das ideias que fundamenta a monogamia é a exclusividade afetivo-sexual a partir do controle dos corpos. Ou seja, só existe amor em um relacionamento caso só haja trocas sexuais e afetivas-amorosas entre aquelas duas pessoas. Essa premissa abre espaço para o grande fantasma da traição e do ciúmes. Não que em relações não-monogâmicas isso não acontece, mas é porque na monogamia esses aspectos têm uma outra perspectiva, já que a relação construída parte da ideia de posse e propriedade.

Na estrutura monogâmica, a posse é um elemento muito presente nas relação e se insere notoriamente na linguagem. É comum ouvirmos “Ela/ele é MINHA/MEU namorada(o), MINHA/MEU esposa/marido”. Ou seja, ele ou ela não pode ser de ninguém mais, então é como existisse sempre a insegurança de não possuir mais, de ser trocado(a/e), de ser deixado(a/e) e do relacionamento acabar. A possibilidade da perda pode gerar um sentimento que é a força motriz do ciúmes e da insegurança. Acreditem, mulheres… nós, homens, sabemos muito bem disso!

Foto: Muhammadtaha Ibrahim Ma’aji/Pexels.

Estrutura e atravessamentos

Sabemos também que existe uma estrutura social racista, patriarcal e sexista na qual potencializa o sentimento de insegurança, principalmente em relação às mulheres pretas. É sabido que, historicamente, as mulheres pretas são vistas como desprovidas de beleza, preteridas afetivamente, hiperssexualizadas e marcadas por um ideal machista de mulher pautada na cobrança do matrimônio e da maternidade.

Todos esses atravessamentos geram um sentimento gigantesco de insegurança no qual nós, homens, utilizamos enquanto um instrumento de controle nas relações afetivo-sexuais. Isso não quer dizer que não somos inseguros ou que não sentimos ciúmes; muito pelo contrário, a questão é que sabemos que temos toda uma estrutura sexista que utilizamos para potencializar esse nosso controle.

Uma estratégia muito utilizada por nós é estar sempre afirmando o quanto as pessoas (principalmente mulheres) nos acham maravilhosos, incríveis e atraentes. Seja mostrando comentários nesse sentido nas redes sociais de forma frequente ou relatando fatos que envolva elogios e até flertes com outras mulheres.

O objetivo neste caso é gerar uma situação de insegurança através de ciúmes na companheira, levando-a a pensar que pode ser trocada ou traída a qualquer momento, ao mesmo tempo que pode gerar uma sensação de que o fato de estar namorando com um cara tão maravilhoso (e muitas vezes nem é lá essas coisas) é motivo de agradecimento, como se estar com ela fosse favor.

Desta forma, possíveis vacilos, traições ou comportamentos violentos podem ser minimizados ou perdoados porque não se quer perder um homem tão incrível; ou então, a mulher pode evitar fazer algo que o companheiro não goste com receio de colocar o relacionamento em risco. Geralmente, essa estratégia vem junto com uma outra, que é a de fazer críticas ou colocar em dúvida a capacidade intelectual, o trabalho, a estética ou alguma outro ponto que impacte negativamente a autoestima da outra pessoa.

Violências e feridas

Às vezes, esse movimento vem de uma forma mais direta, falando que a mulher está gorda ou magra demais, criticando o cabelo, as roupas, a forma de falar, o trabalho. Ou então vem através da reafirmação de um ideal de mulher que não corresponde com a sua companheira, a exemplo das falas: “Amo mulher de cabelo liso”, Adoro esse corpo”, “Meu sonho é me relacionar com uma mulher com peitos grandes”, entre outras.

Nesse sentido, estamos muitas vezes jogando com as estruturas de opressão para que não possamos olhar para as nossas inseguranças, nossas feridas e nossos traumas. Veja que geralmente para esses homens a culpa é sempre da outra pessoa, nunca há o que se responsabilizar, pedir desculpas? Dificilmente! Por isso que a louca é ela, a ciumenta e as outras coisas que muitos homens costumam dizer das parceiras quando acaba a relação (e às vezes a relação nem acabou). E por muitas vezes a real situação não é a dita ou então é provocada pelo parceiro.

Já discuti em outras colunas o quão é violenta a construção subjetiva dos homens negros no Brasil, o quão as feridas abertas sangram e a necessidade de ser esse homem branco nos violenta. Mas não podemos fugir da nossa responsabilidade enquanto agentes de transformação pessoal, da nossa comunidade e da estrutura social.

Por isso que, para mim, pensar as masculinidades negras é antes de tudo sobre a saúde e existência do nosso povo, é sobre pararmos de sangrar. Porque cada mulher preta violentada, a cada homem preto agressor, a cada corpo negro nas valas, no cárcere e no caixão se vai parte da nossa dignidade e energia ancestral de potência e criação. Homens pretos, é necessário que nos responsabilizemos pela mudança!

Foto de capa: Budgeron Bach/Pixels.

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