Você já pensou em como habita o mundo? Em como percebe as pessoas, os gestos, os silêncios, os ruídos, as luzes, os ritmos e as expectativas que organizam a vida social? Esse tipo de reflexão existencial talvez atravesse todas as pessoas em algum momento, mas pode ser especialmente contínuo para pessoas neuroatípicas.
Em Māori, a palavra para autismo é takiwātanga. Criado pelo especialista em cultura e linguagem Māori, Keri Opai, o termo deriva da expressão tōku/tōna anō takiwā e significa “em seu próprio tempo e espaço”.
Gosto de pensar que takiwātanga descreve alguém que habita o tempo e o espaço de outra maneira. Uma palavra capaz de deslocar o autismo da gramática do déficit para uma ética da diferença e do ritmo. Tenho pensado muito nessa palavra, visto que ela abre uma chave política e antropológica para compreender o que significa existir como pessoa com deficiência (PcD) em um mundo que coloniza os tempos, os corpos, os afetos e define quais as formas de estar em relação são consideradas legítimas.

Gosto de pensar que todo encontro com o outro é um risco. A questão é que essa dança do encontro não segue o mesmo ritmo para todas as pessoas. Para algumas, o mundo social parece uma coreografia aprendida na infância. Para outras, cada gesto exige leitura, cálculo de intensidade, atenção ao tom da voz, ao corpo, ao intervalo entre uma palavra e outra.
Desde muito cedo, pessoas autistas aprendem quais partes de si são consideradas aceitáveis e quais precisam ser ocultadas. Aprendem a controlar gestos, interesses, formas de comunicação, necessidades sensoriais e modos de presença. Somos pouco ensinados a reconhecer o valor de nossas diferenças. Em geral, aprendemos a escondê-las.

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Hoje, enquanto antropóloga e ativista, tenho uma séria dificuldade em localizar o problema nos corpos neuroatípicos.
Vivemos sob uma lógica produtivista que já se mostra exaustiva até para sujeitos neurotípicos. Uma temporalidade acelerada, fundada na disponibilidade permanente, na hiperconectividade, na precarização do trabalho e na conversão dos afetos e das pessoas em mercadoria. Somos constantemente convocados a performar eficiência, sociabilidade e adaptabilidade. O custo dessa exigência é distribuído de forma desigual, recaindo de maneira particularmente violenta sobre aqueles cujos corpos e sensibilidades escapam às normas dominantes.
Se o autismo pode ser compreendido como a experiência de um tempo e de um espaço próprios, talvez seja especialmente difícil habitar capitaloceno espaço constante de uma verdadeira colonialidade dos tempos. Uma ordem que hierarquiza ritmos de vida, modos de atenção, formas de comunicação e maneiras de habitar o mundo.
A pergunta deixa de ser apenas como pessoas autistas podem se adaptar ao mundo. A pergunta é: que mundo estamos produzindo e para quem ele é habitável?
Em que mundo pessoas autistas conseguem construir autonomia sem adoecer? Em que mundo podem trabalhar sem esgotamento permanente? Em que mundo podem existir sem serem continuamente convocadas a justificar sua existência?

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Essa questão se torna ainda mais urgente quando observamos os debates recentes sobre a legitimidade dos direitos de pessoas autistas classificadas como suporte 1. Como se houvesse um “autismo leve”. Como se décadas de pesquisa já não demonstrassem os custos profundos do mascaramento social. Como se a capacidade de estudar, trabalhar ou produzir anulasse o sofrimento psíquico, sensorial e relacional envolvido nesse processo.
Talvez uma das maiores violências contemporâneas esteja menos em ressaltar a diferença e mais na exigência constante de tradução. Na necessidade de explicar os nossos limites, justificar as nossas necessidades e pedir desculpas por modos de existir que escapam às expectativas normativas.

Nos últimos anos, tenho trabalhado cada vez mais com noções, como cosmopolítica e múltiplos mundos. A ideia de que habitamos uma pluralidade de formas de compor a vida, o sensível e o comum. Talvez o autismo também nos convide a pensar nessa direção: como uma experiência que torna visível a coexistência de múltiplas formas de perceber, relacionar-se e produzir mundo.
Todo encontro verdadeiro nos desloca. Nenhum encontro nos deixa intactos. Talvez o capacitismo opere justamente como uma recusa desse risco, visto que é uma tentativa permanente de reduzir a diferença ao conhecido, enquadrar o outro em categorias familiares e transformar aquilo que desafia nossas certezas em algo administrável.
O orgulho autista, para mim, tem algo a ver com recusar essa lógica. Tem a ver com sustentar a diferença sem reduzí-la ao conhecido e sem exigir que ela se torne familiar para ser legítima.
Afinal, como sugere o antropólogo brasileiro Viveiros de Castro, o encontro com o outro não deveria servir para explicar ou domesticar a sua diferença, mas para multiplicar os mundos possíveis.
O encontro com o outro precisa multiplicar os mundos.
Foto de capa: Wavy Revolution/Pexels.
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É pesquisadora, ativista e escritora baiana do povo Tupinambá. É também Doutoranda em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Certificada pelo Afro-Latin American Research Institute at Harvard University, atua nos campos das relações étnico-raciais, cosmopolíticas afroindígenas e direitos dos povos tradicionais. É autora do livro “Para Além da Imigração Haitiana” (2020), criadora da Revista Odù, pesquisadora associada à ABPN e ao Núcleo de Estudos Afro-Latino-Americanos (UNILA). Atua em pesquisas e projetos voltados a povos e comunidades tradicionais, desastres socioambientais e reparação de danos, com experiência na elaboração de laudos técnicos e iniciativas socioambientais. Nas redes sociais (@jadealobo), apresenta documentários, webséries e podcasts que atua como pesquisadora.




