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Pretarte

“Ninguém Sabe meu Nome” é o peso do olhar invisível

8 de novembro de 20248 de novembro de 2024Grasieler MartinsComment(0)

Como preparar um corpo preto para o mundo? E qual o caminho para que ele não apenas sobreviva, mas prospere em um mundo que desumaniza corpos negros? No monólogo “Ninguém Sabe meu Nome”, a atriz Ana Carbatti fala sobre o temor de criar uma criança negra dentro de uma estrutura racista e a luta para que ela ultrapasse a linha dos 30 anos de idade. Todas essas inquietações são trazidas ao palco a partir das preocupações maternas vividas por mães negras.

Criado por Ana no segundo ano da pandemia de Covid-19, o espetáculo reflete suas leituras sobre política antirracista e movimentos de direitos civis, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Ana diz: “Comecei a pensar nesse corpo energético, em movimento constante, nesse corpo curioso do meu filho. Ao mesmo tempo, me aprofundava nas ideias de grandes pensadores da política antirracista. […] Queria falar sobre a dificuldade de pensar o corpo negro na sociedade e como preparar esse corpo negro para que ele voe”.

Em meio à angústia de pensar no corpo do menino, cheio de energia, ser associado a falas, pensamentos e comportamentos violentos, e com o sentimento de ‘a fome com a vontade de comer’, como diz Ana, em entrevista exclusiva ao Negrê, ela revela como esse pensamento a impulsionou a falar sobre a violência que mata meninas e meninos negros. O desejo de trazer essa realidade à tona se tornou um motor para confrontar e questionar, através do teatro, as estruturas que condenam esses corpos desde a infância.

Foto: Renato Mangolin.

A violência que os mata não é um acidente, é um ‘projeto de Estado’

O espetáculo não tem a intenção de ser didático. É dividido em momentos de questionamentos para o público e vice-versa. Ana propõe, com o monólogo propõe: “Em vez de lançarem essas perguntas para a atriz que está no palco, por que não se perguntam a vocês mesmos? Como é que você se sente ao ver isso? O que você pode fazer?“.

No final da peça, o palco escurece, deixando apenas uma tela preta; enquanto a personagem puxa um grande rolo de papel, no qual estão registrados os nomes de crianças e adolescentes negros, acompanhados das idades em que foram ceifados. “A violência que mata meninas e meninos negros não é um acidente, é um ‘projeto de Estado”, é a mensagem deixada. À frente, na segunda fileira, um homem branco de cabelos grisalhos, visivelmente abalado, arfava contra o silêncio que pairava na sala. Quando as luzes voltam, é possível vê-lo esfregando os dedos nos olhos. Mas ainda há quem a questione quando foi a primeira vez em que sofreu racismo. 

Apesar de seus dois anos de existência, e de ter sido criada em um período de retrocesso político, quando os direitos humanos estavam sendo minimizados, Ana Carbatti observa que pouco mudou no público e no debate gerado pela peça desde 2022. “Há dois grupos de espectadores”, ela explica. “O primeiro se sente mobilizado, incomodado, e sente que precisa fazer algo, se sente responsável. O outro se incomoda, mas permanece apenas com esse incômodo, dizendo: ‘Eu não sei como lidar com isso'”

Para os não-negros, o espetáculo tem como mote principal de que “Isso não é um problema nosso. Eu não tenho nenhum problema com as pessoas negras. Quem tem é quem tem que resolver, né?“, como Ana observa.

Frase dita por Ana Carbatti. Foto: Reprodução/Facebook.

A peça também expõe o desconsolo de explicar ao filho, ainda criança, que à medida que ele crescer, terá que andar com as mãos à mostra; sempre com o documento no bolso, não poderá falar demais nem ficar calado demais, porque tudo será interpretado como uma conduta violenta. Esses anseios  trazidos da luta cotidiana de mães negras, como a própria Ana, vem diante da necessidade de preparar seus filhos para um mundo que constantemente ameaça suas vidas.

“A única coisa que o espetáculo pode fazer por essas mães é dar voz a elas, dar espaço, mas eu acho que o espetáculo não tem esse poder de transformação para essas mulheres. Pode dar uma identificação, um espaço de fala, sabe? Um lugar de fala, de reverberar”, finaliza a atriz.

Saiba mais

Monólogo “Ninguém Sabe Meu Nome”

Datas: de 8 a 10/11/2024 (sexta-feira a domingo)
Horários: sexta e sábado às 20h; domingo às 19h
Local: CAIXA Cultural Fortaleza
Endereço: Av. Pessoa Anta, 287, Praia de Iracema – Fortaleza (CE)
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia – incluídos clientes CAIXA) na bilheteria da CAIXA Cultural
Classificação: 12 anos
Informações: Site CAIXA Cultural

[Debate Temático] CO-VÍTIMA – uma questão de saúde pública 

Data: 09/11/2024
Horário:
16h (debate com 1h30 de duração)
Local:
Teatro da CAIXA Cultural Fortaleza
Endereço:
Av. Pessoa Anta, 287, Praia de Iracema – Fortaleza (CE)

Foto de capa: Renato Mangolin.

LEIA TAMBÉM: Nova temporada do programa “Conversa Preta” estreia dia 16 de novembro na Bahia

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Grasieler Martins

Estudante de Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Com uma paixão por contar histórias ignoradas pela mídia tradicional, dedica-se ao jornalismo de denúncia e celebração, principalmente ao jornalismo negro. Busco potencializar as vozes não ouvidas e trazer à tona narrativas raciais e sociais que importam: a celebração e resistência negra. Acredito no poder transformador da informação e no papel do jornalista como agente de mudança, comprometida com a justiça social e promoção da diversidade.

Tagged ana carbatti, mae negra, mae preta, monologo, ninguem sabe meu nome, peca

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