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The Underground Railroad – Liberdade para os negros através de uma ferrovia

Nos últimos anos, estamos discutindo com mais afinco a representatividade no cinema e na televisão. Discussões que têm trazido efeitos positivos, quando assistimos mais artistas negros à frente de programas de televisão, ou como protagonistas em filmes e séries. No entanto, apesar de comemorar as pequenas conquistas, ainda percebemos que há estereótipos em algumas dessas obras ou mesmo a pura e simples exploração do sofrimento  negro. Foi assim em Them (2021) – série sobre racismo lançada pela Amazon Prime – mas que preferimos não indicar, devido o conteúdo exploratório ser muito claro, enquanto o conteúdo representativo estar no nível de quase zero.

Com o lançamento de The Underground Railroad – Os Caminhos para a Liberdade (2021), também lançada pela Amazon Prime no mesmo ano que Them, não deixamos de ver o conteúdo exploratório do sofrimento, mas conseguimos reconhecer a narrativa da história da escravidão nos Estados Unidos (1526-1865) e a história da própria protagonista, Cora Randall, vivida pela atriz sul-africana Thuso Mbedu, 30.

A protagonista Cora Randall (Thuso Mbedu). Foto: Divulgação/Amazon.

O cineasta Barry Jenkins, 41, – diretor dos filmes Moonlight (2016) e Se a Rua Beale Falasse (2018) –, faz sua estreia na televisão como diretor da série de dez episódios, que é baseada no romance homônimo de Colson Whitehead, 51, e pelo que ouvi dizer, é bastante fiel ao livro (ainda não li). The Underground Railroad está longe de ser uma série que romantiza a escravidão ou diminui o peso da violência do passado na tela.

O primeiro episódio já inicia informando que há cenas de violência e a classificação é de 18 anos, apenas desse episódio. O episódio inteiro é marcado pela violência, quando apresenta uma criança sendo açoitada junto com Cora ou pior ainda, quando mostra um homem sendo açoitado e depois queimado vivo na frente de todos os escravizados. Isso enquanto os homens brancos assistem a tudo num jantar com a maior naturalidade que cabe a quem não vive ou se importa com o sentimento do outro, a quem  sempre considerou o negro inferior e, portanto, passível de violências extremas como essa. 

No entanto, apesar de ter episódios pesados, Jenkins consegue trazer certa leveza e poesia para a obra, a partir do segundo episódio, seja pela fotografia ou pela sensibilidade e carisma da protagonista.

Cora é uma negra escravizada que foge da fazenda com sua melhor amiga e com seu amigo e também amor de sua vida, Ceasar – interpretado pelo ator Aaron Pierre, 27. O começo da fuga é mal sucedido e além de serem obrigados a deixar sua amiga para trás, Cora acaba assassinando um homem branco, aumentando assim a sede de vingança dos homens brancos.

Foto: Divulgação.

É a partir daí que o autor usa de elementos reais para construir a narrativa de ficção. Em 1849, a ativista Harriet Tubman atuou como “condutora” na conhecida Ferrovia Subterrânea, que, na verdade, não era uma ferrovia, mas sim uma rede de rotas, passagens e casas secretas usadas para transportar em segurança os escravizados fugidos.

A rede era administrada por negros e brancos abolicionistas que infrigiam a lei para manter os fugitivos em segurança. Não havia trem, mas eles usavam esses termos para despistar os caçadores dos negros escravizados. Jenkins vai além e cria realmente uma ferrovia subterrânea administrada por negros e brancos abolicionistas, que atuavam como condutores dos três e registravam cada transportado nas estações.

Foto: Divulgação/Amazon.

E foi por meio da ferrovia que Cora fugiu muitas vezes, atravessando estados do norte e do sul dos Estados Unidos e vivenciando a violência contra negros escravizados ou libertos. Da Carolina do Sul a Carolina do Norte, Cora experimentou a vivência num estado que se dizia abolicionista e tinha abrigos para negros, permitindo que trabalhassem por um salário e participassem de festas. Mas, no fundo, queriam fazer estudos e experimentos, como por exemplo, esterilizar as mulheres negras.

Ela passou por estados onde o linchamento dos negros foi generalizado e a entrada de qualquer negro era proibida. Cora viveu todo tipo de violência enquanto tinha no seu encalço o caçador de escravos Arnold Ridgeway, vivido pelo ator branco australiano Joel Edgerton, 47.

Para Arnold, encontrar Cora e devolvê-la aos seus donos era uma questão de honra, pois a mãe de Cora havia fugido quando ela ainda era criança e nunca foi encontrada. O episódio que conta a história da mãe de Cora é um dos mais tristes e também sensíveis. A atriz ugandesa Sheila Atim, 30, é um espetáculo de beleza e talento.

Para além de todo o sofrimento, a série tem uma fotografia bastante solar, que suaviza as nuances da tristeza. Mas também há episódios que apresentam estados onde os negros poderiam ter sua liberdade, desde que comprassem sua alforria. E que também poderiam ser bem-sucedidos e ter algumas conquistas.

Vamos parando por aqui, para não darmos mais spoilers. Mas considerando que esta é uma série do ame ou odeie, sem dúvida alguma. 

Confira o trailer:

Ficha técnica

The Underground Railroad (Os Caminhos para a Liberdade)
Ano: 2021
País de origem: Estados Unidos
Formato: minissérie
Duração: 20-77min (Depende do episódio)
Gênero:
Drama
Direção: Barry Jenkins
Baseado em: The Underground Railroad
Autor: Colson Whitehead
Elenco: Joel Edgerton, Thuso Mbedu, Chase W. Dillon, Fred Hechinger, Peter Mullan, Aaron Pierre, Justice Leak, Damon Herriman, William Jackson Harper, Amber Gray, Jim Klock, Lily Rabe, Benjamin Walker, Lucius Baston, Owen Harn, Bri Collins, Ryan James, Will Poulter, Sheila Atim, Peter de Jersey, Chukwudi Iwuji, IronE Singleton, Mychal-Bella Bowman, Marcus “MJ” Gladney Jr.,Cullen Moss
Disponível: Amazon Prime Video

Foto de capa: Divulgação/Amazon.

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