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Preto e modelo, hackeando o sistema: a trajetória pela indústria da moda

Homem preto e nordestino, com uma vida de sonhos, viagens e experiências. Gean Frazão, 25, natural de São Luís do Maranhão (a popular Ilha do Amor, como carinhosamente é mencionada por ele) trabalha hoje como modelo profissional. Ele se mudou para Fortaleza (CE) para trabalhar na agência RC Model no ano de 2017 e sua atual moradia é em São Paulo (SP), na qual se mudou no final de 2018 e começou a trabalhar pela agência JOY. O nordestino já fez trabalhos com C&A, Bradesco, Greenish, Olympikus, Reserva, Riachuelo e Shopping Iguatemi, tendo passado por mais de 10 estúdios.

O modelo maranhense conversou com a reportagem do site Negrê para a editoria Vozes. Batemos um papo sobre sua trajetória, a saída de sua cidade natal, os obstáculos enfrentados e seu lugar como homem preto referência de beleza, hackeando o sistema dentro da Moda. Confira:

Negrê  O que desencadeou sua carreira de modelo? De onde surgiu esse sonho? 

O modelo maranhense Gean Frazão. Foto: Marsovi.

Gean Frazão – Eu era jogador de basquete e sonhava em ser atleta, até que tive uma lesão um pouco grave no joelho que acabou me afastando desse sonho. E nesse período, sempre era abordado por várias pessoas aleatórias que perguntavam se eu era modelo, e quando respondia que não, elas falavam pra eu tentar a carreira que poderia dar certo. Conversei com meus irmãos e alguns amigos que falavam a mesma coisa, foi então que eu comecei a ir atrás desse objetivo, e com o tempo foi se tornando uma nova paixão e um novo sonho.

Como foi o início de carreira e a adaptação?

G.F. – Como a maioria das coisas, no início você tem que passar por várias fases e algumas bem difíceis, e pra mim não foi diferente. Decidi ir pra outra cidade, fiquei longe da família e dos amigos, tava com pouca grana, vivendo uma nova rotina. Mas a adaptação foi rápida e tranquila, fiz grandes amizades que me ajudaram nesse processo de recomeço. Já fui fazendo alguns trabalhos que também ajudaram bastante. 

N – Você se mudou do Maranhão para o Ceará, e então para São Paulo. Pode contar um pouco sobre essa trajetória e o que ela trouxe?

Dragon Fashion Brasil (DFB) em Fortaleza (CE), no ano de 2018. Foto: Eunivan.

G.F. Eu já estava com intenção de vir pra São Paulo, mas com algumas preocupações e medo por viver uma realidade diferente em São Luís. Aí surgiu a oportunidade de ir pra Fortaleza, que tem o mercado da moda melhor comparado a São Luís e chega a ser um pouco parecida com a de São Paulo. Então, achei que seria uma oportunidade boa pra aprender, pegar experiência, fazer material e estudar um pouco sobre como funciona esse mercado pra não chegar em São Paulo sem nada, “cru”. Me mudei pra Fortaleza, onde passei 1 ano e 6 meses trabalhando e aprendendo, e nesse período tive uma evolução boa e decidi mergulhar na carreira. Comecei a ter novos objetivos, novos sonhos e novas metas. Então, me senti mais confiante e preparado pra dar mais um passo e ir pra São Paulo que sempre foi minha intenção. E isso me trouxe conhecimento, uma experiência de vida nova, mais determinação, maturidade, amigos e muitas histórias boas. 

N Quais são as maiores dificuldades sofridas por homens negros na moda? E por nordestinos?

Gean Frazão agora mora em São Paulo, onde continua sua carreira como modelo profissional. Foto: Marsovi.

G.F. Por ser um homem negro e crescer em uma sociedade racista que conserva o racismo estrutural e mata um homem preto a cada 23 minutos já é bem difícil. Então, essa questão racial acaba se enraizando e refletindo em todas as áreas do sistema, principalmente na indústria da moda que a representação branca é maioria. A gente sabe que existe um padrão que é bem-vindo nesses espaços, um padrão de beleza que foi implementado pela sociedade racista que é do homem branco, de olhos claros e cabelo liso. E com isso, encontramos dificuldade de representação no mercado e a dificuldade de encontrar grandes referências. Ainda ocupamos pouco espaço em um país que negros representam 54% da população, e essa questão de dar espaço a pessoas negras na moda tem sido bem recente. Nossa representação ainda é baixa e poucos negros estão em lugares de destaque, ainda somos minorias nos trabalhos, nos castings e dentro dos estúdios.

N Quais cuidados físicos e psicológicos você adota? 

G.F. Como sempre pratiquei esportes, procuro ter cuidados com meu corpo mantendo-o sempre em movimento, seja treinando na academia ou em parques, correndo, andando de bike ou jogando basquete e mantendo minha alimentação equilibrada e saudável. E com o psicológico não deixa de ser diferente, gosto de ler, sempre filtro meus pensamentos e não troco energia com pessoas negativas. Gosto de manter tudo em equilíbrio.

Foto de capa: Hudson Renan.

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