Colunas

Sobre “palmitagem” e afins: precisamos aprofundar o debate

Não é de agora que as discussões sobre palmitagem, preterimento e relações inter-raciais ficam em evidência nas redes sociais. Me lembro dos casos de Orochi, Nego do Borel, Jojô Todinho, Karol Conká e agora mais recente o da Glória Maria que, em entrevista ao Roda Viva, afirmou que: “O homem preto não quer a mulher preta”.

Primeiro, gostaria de dizer o quanto isso gera engajamento nas redes, todo mundo quer falar sobre o assunto e parece que às vezes é de propósito; pois quanto mais superficial se traz esse debate, mais tem gente comentando. É mulher negra concordando, mulher negra discordando, homem negro se defendendo e acusando as mulheres negras, gente trazendo a história da sua vida, gente branca se metendo no meio e vários vídeos sobre o tema acabam circulando rapidamente nas redes.

Confesso que sempre quis fazer um texto, trazendo minha opinião sobre o assunto, mas nunca saiu. Acho que sempre fico com preguiça porque do jeito que os temas citados são debatidos, em grande parte, são a partir do ataque, da defesa e da acusação. Muitas vezes, fico com aquele sentimento que a conversa não vai chegar a lugar nenhum, sabe? Na minha leitura, esse assunto precisa ser pensado em três aspectos importantes sobre o racismo e o amor.

Estamos aprendendo a amar

No texto Vivendo de Amor (1994), escrito pela bell hooks (1952-2021), é possível perceber o impacto da escravidão no ato de amar. A escritora relata que o contexto escravocrata (Violência extrema, venda de companheiros e companheiras, separação da sua família e outras experiências que ainda reverberam na sociedade) interferiu na forma em que o nosso povo experenciou o amor.

O amor que conhecíamos era o amor dos brancos, da sinhá, mulher de casa – submissa, feminina e que faria de tudo para agradar o marido -, e do senhor de engenho – que era violento, dominador, forte e agressivo. Esse amor, consequentemente era também o amor do Cristianismo, de lutar contra “a carne”, da repressão da sexualidade, da ideia do corpo casto e puro, da monogamia e do casamento enquanto instituição absoluta e vital para a sociedade (Desde que seja uma família cisheteronormativa).

Dessa forma, é possível refletir que esses modelos de relação amorosa e do amor, ainda é uma ferida colonial aberta para muitos de nós; e talvez, por conta disso também, é um tema que às vezes nos remete às experiências dolorosas da nossa vida afetiva-amorosa. Em mim, esse assunto ainda acessa aquele Paulo da quinta série que, até o terceiro ano, nunca tentou uma investida amorosa por ter certeza que nunca seria amado, mas também acessa `às relações de amor e à potencialidade que vivi nos últimos relacionamentos com experiências incríveis.

Hoje, consigo viver e falar com mais ternura e alegria sobre o amor, porém sei que não é a realidade de muitas pessoas pretas; principalmente mulheres trans, homens trans, Pessoas com Deficiências (PcD), pessoas LGBTQIA+ e todo mundo que possui o carimbo social do não-amor. Com toda essa história, eu quero falar que ainda estamos aprendendo a amar! E, por muitas vezes, nossas dores e feridas se manifestam através da responsabilização de algum grupo ou de alguém.

Muitas vezes, queremos achar culpados para o que sentimos; mas se podemos encontrar algum culpado para que os nossos corpos, em grande parte, não sejam amados, essa culpa é do racismo! É a estrutura racista que animaliza, hipersexualiza e desumaniza nossos corpos; nos fazendo acreditar que não somos dignos para ser amados e nem temos condição de amar alguém, pois esse amor é voltado aos tipos de corpos que não parecem com os nossos.

LEIA TAMBÉM: Sobre afetos masculinos e nordestinos

A construção subjetiva do negro a partir do branco

A psiquiatra e psicanalista Neusa Santos Souza (1948-2008) em seu livro Tornar-se Negro (1983) aponta que a construção da nossa subjetividade ocorre a partir de um ideal branco. Desde cedo, aprendemos que ser branco é possuir diversos privilégios na sociedade. Essa narrativa sempre foi reproduzida na televisão, na literatura, no cinema, no colégio, na igreja e em outros espaços sociais. Umas das situações que acontecia no colégio e me fazia ter a certeza de que eu não merecia ser amado, era quando via as meninas comentando sobre os “colírios” da revista Capricho.

Não sei se lembram, mas existia os colírios da Capricho, que eram garotos escolhidos pela revista, na qual recebiam o símbolo de jovens “lindos e perfeitos” (obviamente eram garotos em sua totalidade brancos, muitos loiros, outros de olhos claros e alguns com as três características). Esses garotos viravam o sonho de consumo das meninas, e geralmente, a cada escolha, eu ouvia comentários e comparações com os garotos da sala (e para a surpresa de 0 pessoas, eu nunca me parecia com os colírios). E isso me dava a sensação que eu nunca seria escolhido para namorar.

Esse sentimento de querer fazer parte do mundo branco me parecia a única forma de me sentir socializado, uma pessoa legal, acolhida e outros aspectos que me eram ofertados. E, por isso, tentei durante muito tempo me embranquecer. Raspar o cabelo, consumir a arte produzida por pessoas brancas, assistir filmes com personagens brancos, ter muitos amigos brancos e sim, ter um relacionamento com mulheres brancas. Tudo isso acaba sendo movimentos que me aproximavam do mundo encantado da branquitude.

Nessa época, eu acreditava que poderia fazer parte desse mundo. E depois de ler, consumir músicas que falavam sobre identidade e poder negro e me inserir em movimentos sociais, fui compreendendo o meu lugar como homem preto. Nesse momento, o mundo encantado da branquitude já não era tão divertido e desejável pra mim e, consequentemente, fui me afastando aos poucos. Ficou nítido pra mim, que os meus relacionamentos com mulheres brancas tiveram influência dessa construção brancocentrada que tive (Não que ela tenha acabado, mas hoje estou mais consciente de como essa construção branca aparece na minha vida.

Foto: Anete Lusinat/Pexels.

Foi através do tornar-me-negro, que pude compreender como a estrutura racista e a branquitude interferiam nas minhas escolhas amorosas e no direcionamento dos meus desejos. Sendo assim, não podemos avaliar questões como palmitagem, direcionamento de afeto e amor para o que é branco e relacionamentos inter-raciais apenas a partir de uma escolha individual.

Precisamos compreender que a estrutura racista se movimenta para que possamos nos aproximar sempre do mundo encantado da branquitude. E, que todos os dias, elas batem na nossa porta oferecendo reconhecimento, amor e acolhimento. O caminho de procurar referências pretas ainda é apenas um caminho, uma possibilidade, pois apesar de muitas questões terem nos modificado em relação à referência, representação e atuação negra na sociedade, o mundo ainda é muito branco! E precisamos estar diariamente nos autoafirmando enquanto pessoas potentes, livres, merecedoras de amor e afeto.

A construção do auto ódio a partir do racismo

Pensando no processo de construção da identidade a partir do ideal branco, é importante trazer também a ideia do auto ódio, outro elemento cunhado pela Neusa Santos em seu livro Tornar-se Negro. A escritora desenvolve a ideia de que, no processo de pessoas negras tentarem ser a partir do outro (branco), há um distanciamento de quem somos, e esse distanciamento acontece a partir do auto ódio. Começamos a odiar nossos cabelos, nossos traços, nossa cor e tudo o que nos faz lembrar da negritude.

Quando li o livro de Neusa Santos, comecei a identificar diversos processos que tive na minha experiência de me tornar negro, e em algum momento eu questionei: “Quando foi que comecei a me odiar? Eu não tenho lembranças de quando isso ocorreu, mas lembro que, por muitos anos, eu quis ser magro, ter nariz afilado, cabelo liso (inclusive fiz permanente). Queria não passar pelas situações que eu passava e que mal conseguia me olhar no espelho, pois tinha vergonha.

Eu tinha vergonha do meu passado, da escravidão (pela forma em que esse tema era ensinado) e da história distorcida que contavam sobre o meu povo. Era um sentimento péssimo! A minha entrada para o movimento estudantil foi o começo da mudança, comecei a deixar a barba e o cabelo crescerem, emagreci quase 40kg (Porque achava pessoas gordas feias, inclusive eu). Comecei a consumir cultura negra, frequentar ambientes que eu me sentia mais acolhido e fui olhando para mim com outros olhos.

Essa transformação que me permiti fazer, não foi nada fácil, eu lutava contra o padrão branco como o ideal a todo momento. Lembro que cheguei a pensar que se eu namorasse uma mulher branca me sentiria (em tese) mais amado, atraente, inteligente e poderia mostrar para o mundo que uma mulher branca (Desejada por toda a sociedade) estava namorando comigo.

Na prática, as coisas não se deram dessa forma, eu me sentia confuso, não sabia a diferença de desejo, paixão e amor. Eu me sentia inseguro e não pensava tanto sobre o fator raça na relação. Foi depois de duas relações com mulheres brancas que eu comecei a me aprofundar sobre os meus desejos, o que eu queria, o porquê de não me sentir atraído por mulheres negras e outras questões.

Quanto mais me aproximava de mim e da minha história enquanto homem preto, mais eu sentia minha autoestima lá em cima. Comecei a acreditar que eu podia falar em público (Sim, eu morria de medo de falar em público, inclusive tinha taquicardia), que eu tinha assuntos interessantes a compartilhar, a me sentir inteligente, porque a autoestima é mais sobre se sentir capaz e potente do que se sentir bonito frente ao espelho, apesar de que se sentir bonito frente ao espelho seja importante. Mas porque eu estou trazendo toda essa história?

É importante lembrar que somos ensinados pela estrutura racista a nos odiar; odiar nossa negritude e nosso corpo. Diante disso, é comum nos sentirmos com baixa autoestima e comprar a ideia que vamos ficar sozinhes, que ninguém sente desejo por nós, que nunca iremos namorar ou então que seria melhor desacreditar no amor. Para quem está com esses sentimentos, qualquer migalha de afeto é um grande amor. E, por muitas vezes, entramos em certas relações que já começam falidas, e que quando ela acaba pensamos: “Como foi possível eu estar naquela relação?”

A estrutura racista, a partir da construção do auto ódio, não apenas distorce o nosso olhar sobre as afetividades e o amor, mas também nos vulnerabiliza no que se refere à busca de afetos. Hoje, eu consigo compreender o porquê de não me relacionar amorosamente com pessoas pretas e pessoas gordas. Se eu ainda não me via enquanto um homem bonito e atraente, como olharia para fora se por dentro me achava feio e sem qualidades? Lembro que sempre duvidava quando alguém me elogiava ou vinha de frente pra cima de mim. O pensamento normalmente era: “Não é possível que aquela pessoa se atraiu por mim ou me elogiou”. Achava que me elogiavam porque queriam me agradar, porque era minha/meu amiga/amigo.

Reflexão final

O aprofundamento de assuntos, como “palmitagem”, relacionamento inter-racial e desejo ou não por pessoas pretas é fundamental. Não podemos colocar a conta do desamor entre homens pretos e mulheres pretas apenas nas nossas costas, pois a estrutura racista é sofisticada e perversa! Podemos e devemos sim, trocar ideias com os nossos e nos responsabilizarmos. Falar de como as questões raciais atravessam o amor e os nossos afetos, é fazer do nosso discurso prática e construir relações saudáveis e afetuosas com a nossa rede de afeto.

Quando entramos no campo da disputa, do ataque e da defesa em relação aos temas discutidos aqui, acabamos por cair em uma armadilha colonial, da qual não há troca e aprofundamento no debate. Hoje, percebo que a prática do auto amor, do acolhimento, da consciência, da autoestima e do afeto entre os nossos, acaba sendo uma arma importante para enfrentar o desamor.

Lembro que, um dia, uma amiga veio falar comigo que estava namorando um homem preto e me agradeceu. Eu, naquele momento, não entendi o agradecimento. Foi então que ela falou que voltou a acreditar no amor pela forma em que eu amava as pessoas, e essa fala tem reverberação até hoje na minha vida. Não é à toa que a bell hooks afirma que: “O amor é cura”, pois ele pode ser um dos curativos para as diversas feridas coloniais que temos em nós e na nossa comunidade.

Referências

Texto Vivendo de Amor – bell hooks. Disponível em: https://pt.scribd.com/document/332202049/Vivendo-de-amor-Bell-Hooks

Tornar-se negro ou As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social – Neusa Santos Souza.

Foto de capa: Cottonbro/Pexels.

LEIA TAMBÉM: 5 passos para ser um homem desconstruído e se livrar do machismo

Ouça o episódio #01 do Saúde Preta podcast – Por que falar sobre saúde da população negra?

Apoie a mídia negra nordestina: Financie o Negrê aqui!

Compartilhe: