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Por que eu adiei a decisão de adotar uma criança

Minha experiência com a Adoção: um breve relato pessoal.

Já fazia um bom tempo que eu queria escrever um pouco sobre a minha experiência pessoal e íntima com a Adoção. Na verdade, irei fazer um breve relato pessoal sobre o processo do qual decidi me submeter de forma oficial no ano passado, mas que iniciou muito antes de 2025. Era novembro de 2021 quando eu pautei um repórter para uma matéria sobre o dia 9 de novembroDia Mundial da Adoção. Ele, com toda a sua sensibilidade e o seu profissionalismo, escreveu um texto extremamente sensível sobre a adoção ser um “ato de amor” e não “de caridade”. Falar isso foi essencial e fundamental.

E aqui, eu não quero dizer que ter assistido a uma reportagem bem feita e escrita de forma sensível foi determinante para que eu decidisse me cadastrar no antigo Cadastro Nacional de Adoção (CNA) lá em 2021 que foi substituído pelo Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA) posteriormente. Eu não tomei a decisão naquele ano por causa de uma reportagem, mas por ter decidido: eu quero ser mãe um dia pela via da adoção! Foi uma decisão muito direta e particular.

Na minha família materna, há dois casos de adoção muito perto da gente: o meu avô (pai da minha mãe) que nasceu em Teresina (PI) e a minha tia querida. Meu avô foi adotado por uma família cujo sobrenome é Cavalcante, mas o sobrenome original do meu avô era Nascimento. Infelizmente, a mãe biológica do meu avô teve muitos filhos e foi abandonada pelo pai deles. Então, sua única saída foi “dar os seus filhos” para outras famílias criarem.

Pobreza e solidão foram fatores determinantes. As irmãs do meu avô foram para uma família e o meu avô para a família Cavalcante. Quando minha bisavó biológica conseguiu melhorar suas condições de vida e estava em um novo relacionamento, decidiu “pegar seus filhos de volta”. Infelizmente, a família Cavalcante não “devolveu” o meu avô para sua família de origem. Meu avô foi registrado como “filho legítimo” do casal e nunca mais teve notícias de sua família biológica.

Então, a família Cavalcante veio morar em Fortaleza (CE), cidade em que nascemos todos os membros da família de minha mãe. Foi assim que meu avô conheceu a minha avó, que havia nascido em Cascavel (CE) e havia se mudado para a Capital em busca de uma vida melhor. Minha avó sempre relata que o meu avô era “louco” por essa família cheia de irmãos que o adotou, sobretudo pelo “velho Cavalcante” (pai adotivo do meu avô). Mas, infelizmente, essas pessoas nunca trataram o meu avô como realmente um “membro da família”.

Além das humilhações que ele passou, eu digo isso porque quando minha bisavó adotiva faleceu e a herança foi ser distribuída, o meu avô ficou de fora da partilha dos bens (mesmo tendo direitos legais). E era mais de um imóvel; quem não tinha casa, comprou e quem tinha casa comprou joias. Meu avô ficou de fora da partilha da herança, não recebeu um centavo sequer e nunca entrou na Justiça pelos seus direitos. E olha que o meu avô sempre fez de tudo pelas suas irmãs e pelo seu pai adotivo, já que era “louco” por ele.

Já a história de vida da minha tia (que me é tão querida) eu não vou contar publicamente aqui, em respeito a tudo o que ela passou e também porque eu não tenho autorização para tornar público uma história que não é minha. Meu avô já faleceu há 20 anos (quando eu tinha apenas 9 anos), mas a minha tia segue viva e vivendo sua vida. E para ela, eu quero apenas dizer que a amo infinitamente e que ela é merecedora de todo afeto e carinho. Ela é um dos maiores exemplos de amor e cuidado que já recebi sendo parente de alguém um dia.

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Como vim parar no processo de adoção

Após ter me cadastrado lá em 2021 de forma online, eu tinha que ir pessoalmente ao Fórum da minha cidade para levar todos os documentos. E, na época, eu não o fiz. Logo, não homologuei o meu cadastro e o processo “não andou”. E a vida continuou. Quatro anos se passaram e, quando chego em 2025 já como membro de um projeto sobre maternidade e infância (MamyCast), decidi que era hora de fazer um novo cadastro no Sistema Nacional de Adoção e seguir com a minha decisão. Eu já tinha minha independência financeira, eu já tinha minha casa, eu já tinha um diploma, eu já tinha uma decisão. Bom, estes parecem ser bons requisitos para alguém que deseja se “tornar mãe” começar.

Foto: Orione Conceição/Pexels.

Pareciam ser bons requisitos até eu parar para rever a minha vida em sessões de terapia com a minha psicóloga da época e fazer o curso do Fórum para Pretendentes para Adoção. A formação que foi dividida em 3 (três) dias em 3 tardes diferentes, com distância de 1 semana para a outra. Esse curso é obrigatório depois que nos cadastramos e entregamos todos os nossos documentos no Fórum.

E eu não sabia que seria assim um curso estilo pedrada, choques de realidade e vários tapas bem na sua cara. Primeiro, é apresentado uma breve história sobre a adoção (de como tudo começou) e depois é falado sobre a adoção no Brasil, sobre o perfil das crianças que estão nos locais de acolhimento (abrigos) e por quais razões elas foram parar ali. Literalmente, foi tudo isso e mais um pouco: uma série de pedradas, uma atrás da outra.

Todos os dias quando eu saía do curso, eu me sentia a pessoa mais inadequada e despreparada do mundo para ser mãe de uma menina negra (parda ou preta-retinta), entre 1-3 anos. Esse era o meu perfil de criança quando iniciei o curso. Visto que isso também é uma etapa do processo: escolher o perfil de uma criança. Logo, eu pensava muito: “Quem mais preparada para ser mãe de uma menina negra do que uma mulher negra?”.

Foto: Chidi Young/Pexels.

Engraçado que eu, enquanto mulher negra, me sentia inadequada para ser mãe de uma menina negra, outras mulheres (brancas) que estavam buscando também a adoção se sentiam mais “adequadas” para isso. E no meio disso também, além de conversas com pessoas, eu conversei com a IA que me repassou dois documentos em PDF: “Preparação para Adoção em Fortaleza” e “Preparação Maternal Negra para Adoção”. Pode parecer louco, mas o chat GPT fez isso rsrs.

Antes de iniciar o processo, eu já havia começado a conversar com pessoas da família, amigos e amigas sobre o desejo de adotar uma criança um dia. Confesso que foram poucas as vezes em que realmente senti acolhimento por parte das pessoas. A maioria das frases que eu ouvi era: “Não faça isso, tenha um filho mesmo natural seu”, “Essas crianças são filhas de drogados”, “Crianças adotadas são problemáticas”.

Ou até mesmo o questionamento: “Mas você quer mesmo ser mãe?”. E esse último questionamento eu confesso que achei bem ridículo, pois era como se a pessoa estivesse alegando que ser “mãe por adoção” não era ser “mãe de verdade”. Como é que pode isso? As pessoas terem tanto mas tanto preconceitos que chegar doer só em ouvir? É realmente uma grande pena ver o quanto as pessoas são extremamente preconceituosas com essas crianças, que não têm absolutamente nenhuma culpa por estarem dentro de uma casa de acolhimento. Chega a doer, e muito.

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Por que eu vejo a adoção como um caminho para a maternidade

Hoje, ontem e meses atrás, eu não sei responder propriamente a seguinte pergunta: “Por que eu quero adotar uma criança um dia?”. Até hoje, eu não consigo trazer uma resposta que seja ‘socialmente aceitável’ para as pessoas. Pois me questionam já com julgamento. E não deveria haver tanto julgamento sobre a decisão pessoal de uma mulher adulta que se conhece bastante, que já viveu um tanto e que tem vontades próprias. Não deveria haver julgamentos nem mesmo questionamentos preconceituosos. Já que maternar é uma decisão. Maternar é muito mais do que um sonho fantasioso, é uma decisão que deve ser tomada com muita clareza, certeza e consciência.

Foto: Orione Conceição/Pexels.

E eu aprendi que a adoção jamais deverá ser vista como um “ato de caridade” e sim como um “ato de amor”. Eu, honestamente, posso dizer que, pra mim, a adoção é uma escolha de amor. É uma escolha porque alguém decidiu ser mãe de um outro alguém, e não importa como. Quem decidiu ser mãe simplesmente escolheu formar uma família; seja com um processo de adoção, seja com uma gestação natural, uma Fertilização in Vitro (FIV) ou uma inseminação artificial. Não importa a via! O que mais importa é o desejo genuíno em maternar!

Decidir por adotar não deveria ser também porque alguém está enfrentando a infertilidade ou a esterilidade e não pode/consegue gestar ou porque gostaria de escolher um perfil ou fenótipo biológico de criança que nem mesmo existe no Sistema. Decidir adotar deveria estar ligado somente ao desejo assertivo e genuíno de criar uma criança.

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Entre a emoção e razão: por que decidi dar um tempo?

Eu vi que decidir criar um ser humano é a maior responsabilidade do mundo inteiro. Foi isso o que concluí durante o curso de Pretendentes para Adoção. Adotar ou parir uma criança é uma decisão extremamente séria. Mas é muito séria mesmo. Tem que ser bem pensada e, de preferência, bem planejada. É necessário refletir toda a sua vida antes de desejar ser mãe ou pai de um alguém.

E diante de toda essa responsabilidade e todos os questionamentos da vida que fazemos, como eu poderia me sentir adequada e preparada para ser mãe de alguém? Seja mãe por adoção de uma criança de poucos mais de 1-2 anos, seja ser mãe de forma natural de um bebê recém-nascido. É uma decisão muito séria e o maior sentimento que eu senti foi o de inadequação.

Cheguei na etapa da entrevista com a assistente social, eu me sentia mais inadequada ainda para continuar. Nesse dia, foram umas 2 horas de conversa com ela. E quando eu decidi parar e fechar o meu processo naquele dia, ela deu o parecer dela: “desfavorável”. E eu me senti em paz por ter tomado aquela decisão naquele dia, pois eu sabia que não poderia ser egoísta e movida apenas pelo “desejo de ser mãe/adotar”. Eu precisava pensar de forma racional. Eu precisava pensar principalmente na criança que chegasse até a mim. E pelo bem dela, foi melhor que eu tenha desistido naquele momento. Foi a decisão mais honesta e dolorosa que eu havia tomado na minha vida.

Foto: Sofia Schutz/Pexels.

Foto de capa: Pixabay/Pexels.

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