Tela Preta

“O Polígamo”: novela sul-africana que vai muito além da poligamia

A trama transforma uma história de casamentos múltiplos em uma reflexão sobre masculinidade, violência de gênero e desigualdades sociais

Há quem chegue para assistir “O Polígamo” (2016) esperando apenas por uma novela sobre relações poligâmicas. A premissa parece familiar: um empresário bem-sucedido divide sua vida entre diferentes esposas e amantes enquanto tenta sustentar a imagem de um homem respeitado. Mas basta avançar alguns episódios para perceber que a produção sul-africana utiliza a poligamia apenas como ponto de partida para discutir temas muito mais complexos, como masculinidade, poder, violência de gênero, desigualdades sociais e as marcas que um homem pode deixar na vida das mulheres e dos filhos que o cercam. A produção africana está disponível no catálogo da Netflix.

Adaptada do romance homônimo da escritora zimbabuana Sue Nyathi, a novela preserva sua identidade cultural sem abrir mão do melodrama. Entre diálogos em inglês e zulu, rituais tradicionais, negociações familiares e personagens que transitam entre Soweto e os bairros mais ricos de Joanesburgo, a produção constrói uma África contemporânea distante dos estereótipos frequentemente reproduzidos pelo audiovisual ocidental.

A escolha de manter o zulu como uma das línguas centrais da narrativa é um dos primeiros acertos da obra. Os rituais familiares, os casamentos tradicionais, a relação com a ancestralidade e a própria dinâmica das comunidades aparecem como parte da narrativa, sem que a obra sinta necessidade de explicar ou justificar constantemente sua cultura para quem está assistindo.

Foto: Divulgação/Netflix.

Aviso: A partir deste ponto, esta crítica contém spoilers importantes sobre a trama e o desfecho de “O Polígamo”. ⚠️⚠️

A novela sul-africana começa justamente onde muitas terminariam, quando um casamento já está em ruínas. Joyce Gomora, influenciadora digital e embaixadora de uma grande marca de beleza, tenta conter rumores de que o seu marido estaria vivendo em um relacionamento extraconjugal. Durante uma reunião de negócios, ela garante que tudo está bem e reafirma que, em poucos dias, o casal comemorará 20 anos de casamento.

Enquanto sustenta essa imagem pública, a narrativa intercala suas falas com cenas de Jonasi vivendo ao lado de Matipa, mulher com quem já mantém uma relação paralela. Ao sair da reunião, Joyce segue até a casa onde ele está vivendo para convencê-lo a voltar. A festa já foi organizada, contratos publicitários dependem daquela celebração e, sobretudo, sua vida foi construída em torno da imagem de uma família perfeita. A partir daí, a novela passa a alternar passado e presente para explicar como aquela família chegou àquele ponto.

É um começo inteligente porque apresenta, logo nos primeiros minutos, um dos principais temas da novela: a distância entre aquilo que se vive e aquilo que se mostra ao mundo. Mais do que salvar um casamento, Joyce tenta preservar uma identidade construída durante anos em torno dele. Sua carreira, sua credibilidade e até a forma como é percebida socialmente estão diretamente ligadas à ideia de uma união sólida. A crise conjugal ameaça não apenas sua vida afetiva, mas também tudo aquilo que ela construiu profissionalmente.

Foto: Divulgação/Netflix.

Outro acerto da narrativa está na forma como escolhe apresentar as suas personagens. Em vez de contar a história de maneira linear, a novela alterna constantemente entre passado e presente, e organiza boa parte de seus episódios a partir das mulheres que atravessam a vida de Jonasi. Cada novo capítulo amplia o quebra-cabeça e reposiciona o olhar do espectador. Embora o título coloque o protagonista no centro, é pelas histórias de Joyce, Matipa, Essie e Lindani que compreendemos quem Jonasi realmente é.

Joyce é a primeira dessas mulheres. Ela representa o presente, a estabilidade e o reconhecimento social conquistado por Jonasi, pois foi ao lado dela que o empresário consolidou a sua ascensão econômica. No início da trama, Joyce ainda acredita que é possível recuperar o marido. Sua insistência em levá-lo de volta para casa pode ser lida como o esforço de quem tenta preservar uma família, mas também de quem precisa sustentar uma reputação pública baseada naquele casamento. Não por acaso, a descoberta da traição abala muito mais do que sua vida amorosa. Ela desmonta uma imagem cuidadosamente construída ao longo de duas décadas.

Foto: Reprodução/Netflix.

É nesse momento que surge Matipa

A princípio, tudo leva o espectador a acreditar que ela ocupará o papel clássico da amante responsável por destruir uma família. A rivalidade entre as duas parece desenhar o conflito central da narrativa. No entanto, essa impressão dura pouco. Conforme a história de Matipa passa a ser contada, percebe-se que ela nunca foi a origem dos problemas daquele casamento. A própria novela revela que Jonasi já mantinha outras relações muito antes dela e que sua forma de lidar com as mulheres sempre esteve marcada pelo desejo de controlar, ocultar e administrar vidas paralelas.

Foto: Reprodução/Netflix.

A personagem deixa, então, de ocupar apenas o lugar da “outra” para revelar uma questão muito maior: o problema nunca foi a mulher que entrou na relação. O problema sempre foi o homem que acreditava ter o direito de construir quantas relações desejasse sem assumir plenamente as consequências de nenhuma delas. Joyce, porém, demora a perceber isso. Ainda tentando impedir o fim do casamento e preservar a imagem pública construída ao longo de duas décadas, ela busca todas as formas possíveis de manter Jonasi por perto.

A situação chega ao limite quando descobre que Matipa deu à luz as duas filhas do empresário, revelando que aquela relação já era muito mais profunda do que uma simples aventura extraconjugal. Diante da impossibilidade de afastar a outra mulher e pressionada também pelos compromissos profissionais que dependiam da manutenção daquela família perfeita, Joyce toma uma decisão desesperada: abraçar a poligamia que é uma prática reconhecida em determinados contextos culturais sul-africanos retratados pela novela e aceitar Matipa como a segunda esposa.

A escolha não nasce de uma mudança de convicções, nem da superação da dor provocada pelas traições. Pelo contrário. Ela representa a tentativa de reorganizar uma realidade que já havia escapado completamente de seu controle. Ao reconhecer Matipa, Joyce acredita finalmente compreender a dimensão dos segredos de Jonasi e encontrar uma forma de preservar, ainda que, parcialmente, a família que construiu. É justamente quando essa nova configuração parece estabilizar a narrativa que “O Polígamo” promove mais uma reviravolta.

LEIA TAMBÉM: Harlem: uma série para inspirar mulheres negras

Essie: uma nova reviravolta

Quando o espectador imagina que todas as cartas já foram colocadas sobre a mesa, surge Essie. E, com ela, a certeza de que Jonasi escondia muito mais do que um segundo relacionamento. A revelação reorganiza completamente a história e obriga tanto Joyce quanto o público a revisitar tudo o que haviam entendido até então.

Depois de construir durante vários episódios a ideia de que aquele seria o principal conflito da história, “O Polígamo” apresenta a história de Essie, e reorganiza completamente a percepção do espectador. É apenas nesse momento que entendemos que Jonasi já vivia uma vida dupla muito antes de conhecer Joyce e que Matipa jamais foi a primeira ruptura daquele casamento. A novela revela, então, que existe uma mulher que permaneceu durante anos à margem da história oficial da família Gomora.

A escolha de apresentar Essie apenas depois de Joyce e Matipa é um dos recursos narrativos mais interessantes da novela. A cada nova mulher, o espectador acredita finalmente compreender quem é o homem Jonasi. E a cada novo capítulo descobre que sabe menos do que imaginava. A estrutura da narrativa acompanha exatamente esse movimento. Antes de explicar Jonasi, a novela escolhe explicar as mulheres que viveram ao redor dele.

Essie é a lembrança constante de um passado que ele tenta esconder desde que ascendeu socialmente. Enquanto Joyce vive em uma mansão e Matipa recebe uma casa confortável depois de ser assumida como segunda esposa, Essie permanece em um bairro periférico, como suposta esposa do irmão de Jonasi e sustentando praticamente sozinha uma família que nunca pôde existir publicamente. Essa diferença não é apenas econômica. Ela evidencia que, nem mesmo dentro da poligamia, todas as mulheres ocupam o mesmo lugar. Também ali existem hierarquias atravessadas por dinheiro, classe e reconhecimento.

E quando o espectador acredita que todas as peças do quebra-cabeça finalmente foram reveladas e que Joyce já não poderia sofrer mais, surge Lindani.

LEIA TAMBÉM: Entre dois mundos: a experiência racial na Família Real

Lindani: um novo deslocamento na trama

A entrada da personagem desloca novamente a narrativa. Diferentemente das outras mulheres, Lindani pertence a uma outra geração. Jovem, estudante bolsista e melhor amiga da filha de Jonasi, ela cresce observando um mundo ao qual dificilmente teria acesso. Quando o empresário se aproxima, oferecendo presentes, restaurantes caros, roupas e uma vida distante da realidade em que ela foi criada, é construída uma relação profundamente desigual desde o início. Existe uma diferença de idade, dinheiro e, principalmente, poder.

Seria muito fácil transformar Lindani apenas na nova vilã da história. Mas “O Polígamo” escolhe um caminho mais interessante. A personagem toma decisões questionáveis e, em vários momentos, contribui para o sofrimento das outras mulheres. Ainda assim, a novela evita reduzí-la à caricatura da jovem interesseira. Sua trajetória convida o espectador a refletir sobre como estruturas de desigualdade fazem com que muitas mulheres enxerguem em homens mais velhos e economicamente poderosos uma possibilidade concreta de mobilidade social.

Foto: Reprodução/Netflix.

O problema não é apenas Lindani. O problema é um sistema que transforma mulheres em objetos de validação, desejo ou ascensão, enquanto concentra quase todo o poder de decisão nas mãos dos homens. É nesse ponto que “O Polígamo” rompe definitivamente com a leitura mais superficial que seu título poderia sugerir. A novela não questiona se um homem pode amar várias mulheres ao mesmo tempo. Ela questiona o que acontece quando relações afetivas são organizadas a partir da lógica da posse.

Jonasi não ama da mesma maneira que controla uma empresa, mas administra suas relações quase como administra seus negócios. Cada mulher ocupa uma função específica em sua vida. Joyce representa estabilidade, prestígio e influência social. Matipa alimenta seu desejo por novidade. Essie preserva um passado que ele insiste em esconder sem conseguir abandonar completamente. Lindani simboliza a juventude permanente que ele acredita ainda ser capaz de conquistar. Nenhuma delas existe plenamente como sujeito diante dele. Todas acabam reduzidas aos papéis que desempenham em sua própria narrativa.

Talvez seja justamente por isso que o verdadeiro protagonista da novela nunca seja Jonasi.

LEIA TAMBÉM: Um encontro para quem estava procurando fugir do amor

Quem realmente tem o protagonismo?

Embora o título leve o seu comportamento para o centro da história, são as mulheres que sustentam emocionalmente a narrativa. São elas que criam os filhos, enfrentam as consequências de suas escolhas, reorganizam suas vidas e encontram maneiras, ainda que imperfeitas, de sobreviver às sucessivas violências produzidas por aquele homem. Aos poucos, a novela desloca o foco do patriarca para aquelas que permaneceram tentando reconstruir o que ele insistia em destruir. 

É a partir da chegada de Lindani que a novela abandona qualquer possibilidade de romantização. O comportamento de Jonasi deixa de provocar apenas sofrimento emocional e passa a produzir consequências cada vez mais violentas. As traições evoluem para agressões físicas, violência sexual, transmissão de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), abandono e um controle cada vez mais obsessivo sobre as mulheres que o cercam. O homem que acreditava poder administrar diferentes famílias como administra seus negócios começa, enfim, a perder o domínio sobre a própria vida.

Antes mesmo do seu fim, porém, a novela entrega um dos momentos mais controversos de toda a narrativa. Depois de suportar sucessivas traições, agressões físicas, um estupro e anos de manipulação, Joyce decide deixar de ocupar apenas o lugar da mulher que reage às escolhas de Jonasi. É ela quem arquiteta o encontro entre o marido e uma mulher vivendo com HIV, na esperança de que ele experimentasse, enfim, as consequências de uma vida marcada pela sensação de impunidade.

Foto: Divulgação/Netflix.

A decisão não é apresentada como um gesto heroico, nem como um ato de justiça absoluta. Pelo contrário, revela uma personagem profundamente marcada pela violência, que rompe limites éticos e evidencia o quanto aquela relação havia destruído não apenas o seu casamento, mas a sua própria forma de existir. A decadência de Jonasi acontece de forma lenta e simbólica.

Depois de passar anos acreditando que dinheiro, prestígio e poder lhe garantiriam impunidade, ele vê seu corpo se tornar o primeiro espaço onde já não exerce controle. O diagnóstico de HIV, somado à recusa em seguir o tratamento médico, acelera um processo de deterioração física que a novela retrata sem glamour. Pela primeira vez, o patriarca depende do cuidado das mesmas mulheres que passou anos negligenciando, manipulando e violentando. Aquele homem que ocupava o centro de todas as decisões termina os seus dias completamente vulnerável.

Se Jonasi perde o protagonismo na vida, também o perde na narrativa. Seu fim não é construído como uma redenção. É construído como consequência. Ainda assim, a novela evita soluções simplistas. Sua morte não apaga o sofrimento causado às mulheres e aos filhos. Tampouco restaura aquilo que foi perdido. Talvez uma das imagens mais fortes da obra seja justamente a de Essie preparando o corpo de Jonasi para o funeral.

Escondida durante décadas, tratada como um segredo e privada do reconhecimento que lhe era devido, é ela quem realiza o último gesto de cuidado. A cena estabelece um contraste doloroso entre a forma como foi tratada em vida e o papel que assume depois da morte do homem que passou anos tentando escondê-la de sua história.

O funeral também nos mostra que a disputa entre aquelas mulheres nunca foi realmente entre elas. Enquanto Joyce insiste em controlar a despedida do marido e Lindani tenta reivindicar um lugar naquele luto, percebe-se que todas, de maneiras diferentes, tiveram suas vidas atravessadas pelo mesmo sistema de poder. Mesmo quando competem entre si, disputam um espaço definido por Jonasi e pelas estruturas que legitimaram as suas escolhas durante o passar dos anos.

É justamente por isso que a última cena da novela é tão inquietante. Depois de acompanhar o esforço de Joyce para impedir que seu filho mais velho, Menzi, reproduzisse os comportamentos do pai, o roteiro encerra a história mostrando o jovem envolvido justamente com Lindani, a última companheira de Jonasi. A escolha desloca completamente o sentido da narrativa. A morte do patriarca não representa, necessariamente, o fim do patriarcado. O homem desaparece. A estrutura permanece.

Apesar de alguns momentos em que poderia aprofundar melhor conflitos importantes, especialmente o impacto das traições sobre a carreira de Joyce como influenciadora digital, “O Polígamo” entrega muito mais do que promete em sua premissa inicial. Ao preservar elementos da cultura sul-africana, construir personagens femininas complexas e recusar leituras simplistas sobre poligamia, a novela transforma um melodrama familiar em uma reflexão sobre violência, poder e memória.

Quando Jonasi morre, não é sua história que permanece. Permanecem Joyce, Matipa, Essie, Lindani e todas as marcas produzidas por suas escolhas. No fim, “O Polígamo” não é sobre quantas mulheres um homem é capaz de amar ao mesmo tempo. Mas sobre como romper um ciclo de violência quando ele continua vivo nas pessoas que sobreviveram a ele.

Foto de capa: Divulgação/Netflix.

LEIA TAMBÉM: Série documental sobre Simone Biles é uma reflexão entre saúde mental e esporte

Inscreva-se na newsletter do Negrê aqui!

Compartilhe: