Entre o barro do Cariri e as águas do Atlântico, a artista visual, performer e educadora pensa o corpo como arquivo vivo, espaço de combate ao apagamento e território de permanência
Pedra Silva, 29 anos, atende a chamada de vídeo ainda em estado de criação. Está no Cariri (CE). O ateliê parece respirar junto com ela: barro, tempo e silêncio em estado de matéria. Entre uma pausa e outra do fazer, ela fala como quem continua moldando algo – não apenas peças, mas mundos. E talvez seja isso: Pedra não interrompe a arte para falar sobre ela. Ela fala de dentro dela.

Artista, arte-educadora e pesquisadora das encruzilhadas, Pedra se apresenta como alguém que pensa o corpo como arquivo vivo – transgressor, ritualístico, em constante reorganização da experiência. Seu trabalho atravessa escultura, dança, performance, fotografia e educação sem pedir licença a nenhuma linguagem.
“Não existe hierarquia”, ela diz. E não parece um conceito. Parece prática.
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O corpo como origem
Antes de qualquer linguagem, há o corpo. Um corpo atravessado por deslocamentos. Crescer em Fortaleza (CE) foi, para Pedra, habitar a instabilidade: mudanças de casa, de escola, de território. Um corpo em trânsito dentro da própria cidade, aprendendo, desde cedo, a carregar o mundo nas costas.
Esse movimento permanece como base de sua estética: um corpo que migra, que reorganiza o espaço, que não se fixa – e talvez justamente por isso cria. Mas há outra camada, mais funda, que sustenta esse gesto: a espiritualidade.
Foi no Abassá de Omolu Ilê de Iansã que Pedra encontrou no terreiro uma pedagogia do corpo. Ali, não há representação. Há manifestação. “Foi no terreiro que entendi que o corpo dança, canta, transcende e também cura..
A cura atravessa sua história como um fio contínuo. Da infância marcada por crises de asma ao diagnóstico de um câncer gástrico em 2022, o corpo nunca foi apenas suporte. Foi campo de disputa, sobrevivência e reinvenção. Entre hospital, reza e criação, ela construiu uma arte que não separa estética de existência. “É como se eu criasse uma dimensão de contato com quem não está mais aqui”.
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Quando a linguagem não basta
Foi na universidade, durante a formação em teatro, que Pedra percebeu o desencaixe. O teatro parecia pequeno demais. A dança também. As artes visuais surgiram como expansão – mas não como resposta final. O que se abria era outra coisa: uma zona de encruzilhada. Um território onde as linguagens não competem, mas se atravessam.
O encontro com o barro, com a manualidade e com a construção de imagens ampliou ainda mais esse campo. A cena deixou de ser apenas representação e passou a ser instalação, ritual e presença. “Percebi que meu trabalho não cabia. Ele se expandia”.
Essa expansão, no entanto, não é apenas formal. É política. Ser uma artista que não se fixa em uma linguagem também significa não ser facilmente capturada. E, ao mesmo tempo, correr o risco de não ser reconhecida em nenhum lugar. “Às vezes me pulverizar é também uma forma de não existir”.
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Criar como reescrever o mundo
Na obra de Pedra, o corpo não é apenas expressão – é ferramenta de reconfiguração do imaginário.
Se, historicamente, corpos trans, negros e periféricos foram apagados ou reduzidos a símbolos, sua arte tenta deslocar esse lugar. Não como resposta direta à violência, mas como criação de outras possibilidades de existência. “Trabalho com aquilo que foi colocado na dimensão do não existir”.
A cura, nesse contexto, não é suavização. É enfrentamento. É criar imagens onde antes havia silêncio. É produzir presença onde houve ausência.
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Mandingueira: uma década de permanência
A exposição Mandingueira marca uma década de trajetória. Para Pedra, esse tempo não se mede apenas em anos, mas na construção de uma poética própria – um imaginário onde seu corpo e outros como o seu passam a assinar a história. “Foi sobre coragem. Sobre construir uma linguagem onde eu pudesse existir”.

Mas esse processo também trouxe outra consciência: a da própria imagem como território político. Em um sistema que, frequentemente, transforma corpos dissidentes em símbolo, ela passa a pensar não apenas no que cria, mas onde se insere – e sob quais condições.
Hoje, além de artista, Pedra se reconhece como trabalhadora da cultura. Alguém que pensa estrutura, continuidade e futuro. “Não é só sobre ocupar. É sobre permanecer”.
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O outro lado do Atlântico
A experiência em Cabo Verde, durante a imersão do Kontornu Dance Camp, marca uma virada. Lá, apresentou a performance Defumação para Afastar o Alzheimer Colonial e encontrou algo difícil de nomear: um reconhecimento que não passa pela linguagem. “Era como olhar e pensar: eu conheço essas pessoas”.
O Atlântico deixou de ser distância. Virou espelho. Nas ilhas, encontrou outro ritmo de tempo: um tempo de maré, de demora e de cuidado. Entre encontros, afetos e conflitos, compreendeu também que a ancestralidade não é idealização. É presença viva, com suas tensões e complexidades. “Quando você vai, você entende a saudade”. E a saudade, ali, não é falta. É vínculo.
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Fortaleza, permanência e deslocamento
De volta, Fortaleza não aparece como cenário – mas como estrutura interna. A cidade vive em sua obra como movimento: migração, precariedade e reinvenção. “Meu corpo aprendeu a guardar tudo numa bolsa e seguir”.
Esse aprendizado transborda para além da criação e se transforma em método. Na arte-educação, Pedra encontra um espaço onde esse gesto continua. A sala de aula não é separada da obra. É extensão dela. Um laboratório onde ideias circulam, se transformam e ganham outros corpos. “Para mim, estar em sala é estar com colegas de trabalho”.
Mais do que ensinar, trata-se de criar condições. Abrir caminhos. Construir ferramentas. E também, de algum modo, reparar. “Quero me vingar das aulas ruins que tentaram me parar”. Mas sua vingança não é destruição. É abertura.
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O que permanece
Quando fala sobre o que deseja deixar nas pessoas, Pedra não fala em impacto – fala em vínculo. Afeto. “Quero que exista um encontro de verdade. Que a gente se torne amigo”. Sua arte não busca encerramento. Busca continuidade. Um gesto que começa no corpo, atravessa o outro e segue. E talvez seja por isso que a palavra cura aparece tantas vezes. Não como solução, mas como processo coletivo.
Cuidar do corpo. Cuidar do tempo. Cuidar da vida. Porque, como ela mesma lembra, não existe obra sem corpo vivo.

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Arquipélago
Antes de encerrar, Pedra deixa uma imagem. Para quem está começando, para quem ainda está se formando, se entendendo, se abrindo: “Não tenha medo de ser atravessada pelas águas”. A pedra, aqui, não é dureza. É transformação. Ser polida, atravessada, modificada pelo tempo. E nunca esquecer: sozinha, é matéria. Junta, é território. “Somos arquipélago”.
Foto de capa: Rodolfo Santana.
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Comunicólogo formado em Comunicação Social pela Universidade 7 de Setembro (UNI7). Sua prática atravessa escrita, pesquisa e produção cultural, com foco nas narrativas territoriais e periféricas construídas a partir das experiências nas comunidades. É do bairro Moura Brasil, em Fortaleza (CE), território que atravessa e fundamenta sua forma de ver, pensar e produzir. Atua como pesquisador na Kuya – Centro de Design do Ceará e possui experiência em redação, pesquisa e crítica de arte em diálogo com a Pinacoteca do Ceará. Integra iniciativas como o Rede Oitão, jornal comunitário do bairro Moura Brasil, além do Site Negrê, contribuindo para a circulação de narrativas sobre cultura, território e memória no Nordeste.




