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O Brasil não é um episódio de uma série americana

Mas tem gente insistindo em atuar como figurante.

Tem dias em que abrir seu feed parece estar assistindo a um episódio mal dublado de uma série que não se passa aqui. “Aquela amiga branca que, pelas roupas e acessórios, dá pra ver que queria ser ‘neguinha’.” Logo abaixo, alguém ironiza: “Depois disso, a Tanisha ficou com ódio da Destiny e da Loretta, daí falou pro Tyrone que não queria que o Marcus fosse cantar R&B com a Latoya.”

A cena é quase cômica. Mas o desconforto que ela causa não vem só do exagero. Vem do deslocamento. Da sensação de que estamos importando não só pautas, mas cenários inteiros, personagens, conflitos e códigos que não nasceram no nosso chão – e, pior, às vezes nem se sustentam nele.

Está cada vez mais insuportável assistir à tradução apressada de debates raciais dos Estados Unidos como se fossem equivalentes diretos da nossa realidade. Não são. Isso não significa negar o racismo brasileiro – que é estrutural, violento e profundamente sofisticado. Significa, justamente, levá-lo a sério o suficiente para não reduzí-lo a um espelho mal posicionado de outra história.

O antropólogo congolês Kabengele Munanga já apontava como o ‘racismo à brasileira’ se sustenta em mecanismos de negação e ambiguidade, operando sob o mito da democracia racial enquanto mantém desigualdades muito concretas. Aqui, não houve apenas segregação formal: houve um projeto de apagamento simbólico que reorganiza continuamente quem pode ser visto, ouvido e legitimado.

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Nos Estados Unidos, a segregação racial foi legalizada, explícita, institucionalizada em placas, leis e fronteiras físicas muito bem definidas. A lógica binária entre branco e negro organizou o país de maneira rígida, criando códigos sociais específicos que ainda hoje reverberam.

No Brasil, como nos lembra a ativista e antropóloga mineira Lélia Gonzalez (1935-1994), a coisa é mais sinuosa. A ideia de “amefricanidade” tensiona justamente essa importação automática de categorias, ao lembrar que nossas experiências negras são atravessadas por uma mistura histórica, cultural e linguística própria – marcada por colonialidade, diáspora e reinvenção. Não somos uma tradução dos Estados Unidos. Somos uma outra coisa.

E é nesse terreno complexo, miscigenado e contraditório que certas importações começam a soar artificiais. Quando o debate se resume a vigiar se a “amiga branca” está usando acessórios “de neguinha”, algo se perde. Não porque a discussão sobre apropriação cultural seja irrelevante – ela é necessária. Mas porque, deslocada sem mediação, ela vira caricatura.

A pergunta que fica é: estamos olhando para o fenômeno ou apenas reproduzindo o script? O sociólogo Muniz Sodré ajuda a ampliar essa lente ao pensar a cultura como campo de disputa simbólica e circulação. Não se trata apenas de quem usa o quê, mas de como signos circulam, quem os legitima e, sobretudo, quem se beneficia dessa circulação.

Foto: Imagem gerada por Inteligência Artificial (IA) pelo Gemini.

Porque há um outro lado dessa mesma cena que raramente aparece. E se, em vez de patrulhar quem consome, a gente observasse quem está produzindo? E se aquela peça, aquele brinco, aquela estética, veio de uma marca criada por pessoas pretas que, pela primeira vez, está alcançando novos públicos?

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Por que a expansão vira automaticamente um problema, e não também um sinal de circulação, reconhecimento e, potencialmente, renda? A cultura negra no Brasil sempre foi apropriada – da música ao vestuário, da linguagem aos gestos. Isso não é novidade. O que talvez esteja mudando, ainda que lentamente, é quem está conseguindo capitalizar sobre isso.

Recentemente, foi impossível não notar a potência de marcas que nasceram nas periferias (Mancuda e 4Town), criadas por pessoas pretas, ocupando passarelas como as do Dragão Fashion Brasil (DFB Festival). Mais do que presença, havia protagonismo. Mais do que tendência, havia autoria.

E o mais interessante: o público era diverso. Misturado. Heterogêneo. Talvez exatamente como o Brasil sempre foi. Isso resolve o problema do racismo? Evidente que não. Mas aponta para uma questão incômoda: será que estamos tão ocupados importando categorias de conflito que deixamos de reconhecer dinâmicas próprias de transformação?

Celebrar o alcance de artistas e criadores pretos não significa ignorar a estrutura que ainda os atravessa. Significa, talvez, disputar o imaginário também pelo lado da potência – e não só da vigilância. Porque, no fim das contas, não se trata de decidir se a “amiga branca” pode ou não usar determinado acessório. Trata-se de perguntar quem lucra, quem aparece, quem é reconhecido e quem continua sendo apagado. E essa resposta, diferente do roteiro americano, não cabe em um tweet traduzido.

Foto de capa: Colagem feita pelo Canva.

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