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Bruno Olly: aquele que transforma infância, periferia, saúde mental e referências locais em coleções

*Esse texto é uma colaboração de Iris Araújo (Assunto Puxado) e Mônica Mascetti junto de Larissa Carvalho

“Estou em Fortaleza, mas não necessariamente vou criar moda praia” – Bruno Olly

Bruno Oliveira Araújo, conhecido por Bruno Olly, nasceu no dia 8 de julho de 1987 na cidade de Parnaíba, no Piauí. Filho de Maria do Carmo Barros Oliveira e Raimundo Nonato de Carvalho Araújo Filho, veio para o Ceará em busca de estudar Moda e assim o fez pelo Instituto de Desenvolvimento, Educação e Cultura do Ceará (IDECC), conveniado à Universidade Estadual do Vale do Acaraú (UVA). Em 2014, deu iniciou ao seu projeto autoral e seguiu como autodidata. Hoje, é estilista, designer de moda, fundador e CEO de sua marca de streetwear chamada Bruno Olly. Há 13 anos, ele vem construindo sua jornada na moda autoral.

Quando deixou Parnaíba (PI) em direção à Fortaleza (CE), Bruno Olly carregava, em suas próprias palavras, “uma mala, uma rede e um sonho”. A mudança tinha um propósito bem definido: estudar Moda. Pegou seus pertences e partiu “com a cara e a coragem”. 12 anos depois, Fortaleza já não era apenas a cidade onde havia estudado, mas o cenário de sua trajetória profissional como designer

Bruno Olly, 39 anos. Foto: Romulo Cesar.

Fortaleza, entretanto, não foi a sua introdução à Moda. Bruno cresceu próximo de mãe e avó, ambas costureiras, que trabalhavam para sustentar a família. Como em muitos casos de famílias brasileiras lideradas por mulheres, não sobrava tempo para ensinar Bruno, então, o aprendizado aconteceu primeiro pela observação e, depois, sozinho foi desempenhando seus primeiros trabalhos.

Fora de casa, outras referências permeavam o universo daquele menino do interior. Na televisão, assistia programas do canal MTV, onde acompanhava cantoras pop, como Britney Spears e observava atentamente os figurinos dos artistas de hip-hop da época. 

Com isso, veio o desejo pela experimentação. Entre um grupo de amigos formados por drag queens, encontrou suas primeiras musas para suas peças. Aos poucos, percebeu que havia algo a ser desenvolvido naqueles primeiros exercícios criativos, algo que se conectava com a costura que aprendera observando a mãe e avó em seus trabalhos têxteis. 

A mudança para Fortaleza lhe conferiu uma estrutura para que o seu trabalho se aprofundasse e profissionalizasse. Depois de apresentar um de seus primeiros desfiles em um concurso de moda local e receber uma máquina de costura industrial como prêmio, nascia, então, sua primeira marca, a Tu Favo

Hoje, a marca autoral Bruno Olly conquistou uma projeção nacional com suas criações de moda masculina inspiradas no streetwear e nas suas origens no Nordeste. Em retrospecto, o trabalho atual referencia diretamente as suas primeiras inspirações, desenvolvendo formas e possibilidades que respondem às suas perguntas feitas ainda criança. 

Na moda, existe uma cobrança permanente pela novidade. Para o estilista, essa pressão pode chegar a um ponto extremo, e admite ter pensado diversas vezes em desistir da profissão, vender as máquinas e abandonar tudo.

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Atenção à saúde mental

A ansiedade passou a ocupar um lugar dentro do processo criativo. Ao falar sobre sua coleção Sufoco Sombrio, explica que queria abordar uma experiência compartilhada por muitas pessoas depois da pandemia. O desafio era transformar um sentimento abstrato em algo que pudesse ser levado para uma passarela. Para ele, a resposta não estava apenas nas roupas. O desfile precisava envolver trilha sonora, vídeo, styling, beleza e performance. “Quando você apresenta uma coleção, não é apenas sobre roupa”, explica. O objetivo era fazer com que o público adentrasse naquele universo.

A estratégia também explica porque o fashion film ganhou tanta importância em seu trabalho. O filme foi construído para transmitir o desespero provocado pela ansiedade. A intenção não era apenas mostrar as peças, mas provocar uma reação em quem assistisse. A moda, para ele, pode ser uma espécie de porta de entrada para discussões que existem para além do universo dela.

Da infância para a passarela

No entanto, nem toda referência sua nasce de uma pesquisa distante. Algumas vêm de lugares muito mais próximos. O Per Feline, por exemplo, surgiu de uma lembrança da infância. Bruno se descreve como o menino que brincava na rua de calção e com os pés no chão, jogando bola, brincando de queimada e pedrinha. Mas, ao representar a periferia, ele não queria recorrer à imagem recorrente do sofrimento. Preferia falar sobre orgulho, alegria e pertencimento.

A mesma lógica aparece quando fala sobre a própria negritude. Na coleção Perifa Feline, o vermelho que havia representado o empoderamento masculino em um trabalho anterior retornou associado à vulnerabilidade de um homem negro. A ideia parte da percepção de que a imagem de força muitas vezes também funciona como uma forma de proteção diante de experiências vividas desde a infância.

Nordeste além do estereótipo

Durante muito tempo, suas referências estavam fora do lugar onde vivia. Como muitos de sua geração, cresceu olhando para a Europa, os Estados Unidos e outros centros da moda em busca de referências. Mas a direção mudou. Fortaleza passou a ser uma fonte de pesquisa.

O estilista conta que chegou a criar uma coleção inspirada no próprio bairro, um lugar que costumava enxergar principalmente pelas críticas: era longe e não tinha muitas opções de lazer. Quando decidiu observar o território de outra maneira, encontrou ali matéria suficiente para criar.

A inspiração também está no cotidiano. Nas exposições do Dragão do Mar, nos antigos rolês pelo Centro, na vida boêmia e, paradoxalmente, na praia. É justamente essa mistura que ele quer levar para a moda.

Fortaleza é uma cidade litorânea, mas, para ele, não significa que sua moda precise ser necessariamente praiana. Ele reconhece a presença de renda, crochê, biquínis, tecidos leves e cores quentes nas representações do Ceará, mas deseja apresentar um Ceará urbano. O streetwear pode dividir espaço com o crochê. O jeans pesado pode incorporar elementos da cultura local. Uma jaqueta puffer pode coexistir com materiais tradicionalmente associados ao Nordeste.

Para ele, a sua geração cresceu sem enxergar o Nordeste como lugar de referência de moda. As referências vinham de fora. Hoje, esse olhar mudou. 

O desejo é levar a marca para espaços como São Paulo Fashion Week e Casa de Criadores, e, depois, alçar mais voos. Quanto mais deseja levar sua marca para fora, mais ele pesquisa Fortaleza, seu bairro, sua infância e as referências ao redor. É uma inversão de caminho: em vez de buscar fora aquilo que pode legitimar seu trabalho, Bruno começa a encontrar valor naquilo que sempre esteve perto.

O que vem depois

Bruno gosta de explorar universos diferentes sem abandonar o streetwear que considera fundamental na sua identidade. Não quer repetir a mesma coleção todo ano. Prefere imaginar o que acontece quando sua linguagem encontra lugares inesperados.

E, quando fala sobre futuro, o designer piauiense volta inevitavelmente para o começo: o desejo de construir uma marca reconhecida, potente, grandiosa e capaz de atravessar fronteiras.

Ao falar sobre um conselho que daria para o próprio Bruno de anos atrás, ele não menciona tendências, mercados ou números. Fala sobre manter os pés no chão, não romantizar a moda e entrar nesse universo por amor. Também fala sobre humildade, trabalho e sobre pessoas que tentaram desmerecer a sua trajetória devido à sua origem. “Ninguém é melhor do que você. Então, seja você mesmo”.

Foto de capa: Romulo Cesar.

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