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Assassinatos em público: Por que o homem negro merece morrer?

No dia 14 fevereiro de 2019, o jovem Pedro Henrique de Oliveira Gonzaga de 19 anos foi morto no mercado Extra da Barra da Tijuca no Rio de Janeiro (RJ), após ser estrangulado pelo segurança Davi Ricardo Moreira Amâncio, 32, que tentou conter um ataque epiléptico de forma violenta. Eu lembro nitidamente desse fato pois no dia do assassinato, eu recebi três mensagens de amigas me perguntando se eu estava bem. A preocupação delas aconteceu, principalmente, pela associação entre o nome do jovem negro morto com o meu, Paulo Henrique Cerqueira Gonzaga. 

Apesar da semelhança entre os nossos nomes (que inclusive me assustou quando li a notícia) há um outro fator em comum, somos dois homens negros. Lembro que no dia do fato eu tive uma certeza cruel, aquele jovem negro morto no mercado poderia ser eu, e por mais que já tenha sentido isso antes, parece que a semelhança do nome trouxe uma realidade ainda mais cruel.

Outro fato me fez reviver a dor de ser um homem negro em um país genocida, aconteceu em 19 de novembro, um dia antes da “comemoração” do Dia da Consciência Negra deste ano no Brasil, 20 de novembro. João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos, foi assassinado após ser espancado por seguranças do mercado Carrefour na cidade de Porto Alegre (RS), devido um suposto desentendimento com uma funcionária do estabelecimento.

Neste caso, o segurança Giovane Gaspar da Silva, 24, teria sido chamado por uma funcionária do supermercado por conta de uma discussão com a vítima e deferido diversos golpes junto com Magno Braz Borges, outro segurança do mercado. É importante destacar que junto aos dois seguranças que participaram do crime, a funcionária do estabelecimento que esteve próxima aos fatos também foi presa provisoriamente e o caso segue sobre investigação

Ao relatar esses fatos, eu fico me questionando: Como a estrutura racista e patriarcal fez do homem negro um grande vilão da sociedade? Ao ponto de agentes de segurança se sentirem confortáveis em ceifar nossos corpos na frente de clientes, câmeras, trabalhadores e familiares da vítima. Sobre qual imaginário e estereótipos nós, homens negros, estamos sendo julgados pela sociedade?

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Durante o processo de escravidão no Brasil, os homens negros eram vistos como animalizados, agressivos e irracionais. A explicação para esses comportamentos decorria dos diversos discursos construídos pela colonialidade, sobretudo através do homem branco colonizador e da Igreja Católica. 

Para esta entidade religiosa, as pessoas negras eram seres sem alma, o que justificava a tortura e desumanização na qual os negros e as negras foram expostos naquele período. Um dos discursos escravagistas contra a abolição era de que os homens negros, se libertos, estuprariam as sinhás e assassinariam os senhores, apresentando uma ameaça à sociedade.

Já no século XIX e XX, o movimento eugenista e higienista iniciava no mundo, que representaram um discurso ideológico branco a partir das ciências, utilizado para manter a dominação biológica do corpo branco em relação ao corpo negro. Esses discursos científicos através da medicina, psicologia, educação física e outros campos, correlacionava a raça negra aos problemas de saúde e comportamentos promíscuos, preguiçosos e criminosos. 

Através desses discursos construídos sobre a população negra, sobretudo do homem negro, a sociedade se estruturou e produziu imaginários e estereótipos para a manutenção do projeto genocida. A todo momento somos colocados no lugar de potencial criminoso, baderneiro e suspeito, aquele homem negro da época de escravidão ou a partir do olhar eugenista e higienista do século XX. 

O homem que dentro do mercado vai cometer crime e que só por ser preto já é suspeito, pois desses tem de monte nos programas policialescos. Programas esses que se comprometem diariamente a reforçar a ideia do homem negro criminoso, sem coração e que é capaz de realizar as piores barbaridades com outras pessoas.

O homem que não merece julgamento e nem a lei e por isso pode ser assassinado com golpes na frente da sua esposa, como aconteceu com João Alberto. Ou então ser estrangulado até a morte na frente da sua mãe, como aconteceu com Pedro Henrique.

Por isso, há uma necessidade urgente de construir e potencializar as experiências de generosidade, cuidado e amor do homem negro. É preciso repensar os modelos hegemônicos de masculinidade e traçar caminhos que não nos violente, nem violente nossa comunidade. É necessário reconstruir a humanidade negada pela colonialidade para que não sejamos alvos desse imaginário e estereótipo que quando não nos mata, faz morrer. 

Foto de capa: Micael Widell/Pexels.

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