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Preto, as mulheres negras não estão aqui para te servir

Há poucos dias, estava conversando com minha amiga Rool Cerqueira sobre a responsabilidade do homem em compreender alguns comportamentos machistas. No caso, ela fez uma publicação intitulada “Oito dicas básicas para homens que conheço”, na qual apontava alguns comportamentos machistas que são naturalizados no dia-a-dia.

Devido ao post, começamos a conversar e ela trouxe alguns exemplos de como nós ainda vemos as mulheres negras enquanto subservientes e de como isso é naturalizado em ambientes domésticos. A partir desta problematização, comecei a me revisitar e refletir sobre a minha responsabilidade nessa construção.

É comum pensarmos que as mulheres negras precisam nos servir, pois esse é o mote da colonização: a subserviência e a exploração da nossa força de trabalho. Após o sequestro dos negros e negras livres de África, nosso povo foi objetificado e posto forçadamente para trabalhar para os senhores da casa grande.

Neste caso, as mulheres negras além de trabalhar cortando cana-de-açúcar e colhendo grãos, também exerciam o papel de ama de leite, cozinheira e cuidadora. Não por acaso, se olharmos para o gênero e a cor das trabalhadoras domésticas hoje em dia, vemos que pouca coisa mudou. Eu aprendi a naturalizar a ocupação desses espaços por mulheres negras. 

Desde cedo, aprendi a associar essas mulheres à Tia Anastácia, aquela personagem do Sítio do Pica-Pau Amarelo que praticamente morava na cozinha e não tinha família. Nos filmes e nos exemplos da escola, eu aprendi que o trabalho doméstico era algo da essência das mulheres e por isso, nós, homens, não podíamos (ou saberíamos) exercer essa função.

Foto: Pexels.

Percebi que o ser servido era uma função natural, feito pelas mulheres, em sua maioria negras. Comecei a entender inclusive que o dom de servir bem era uma característica valorizada por nós e pela sociedade. Ouvia histórias dos homens que chegavam em casa cansados e a mulher já havia preparado o jantar, porque cozinhava muito bem, além de cuidar da casa sem reclamar. Já ouvi homens falarem que mulher de verdade deveria ser submissa a nós e que esse pensamento era bíblico.

A mulher de verdade para muitos de nós é aquela que faz todas as atividades domésticas, serve o almoço e que sempre cede ao comportamento masculino nas relações (seja relacionamento de trabalho, amizade, namoro ou outros). De preferência, essa mulher não pode falar muito, ou então, precisa se sentir mal ao falar e pedir desculpas, até porque o silenciamento é uma ferramenta importante na dominação masculina. 

Durante minha história, fui percebendo que reforçar a ideia da mulher bela, recatada (ou a que não fala) e do lar, era uma estratégia de dominação e desresponsabilização masculina. E por mais que nós homens negros não sentemos na mesa do patriarcado (como diz Roger Cipó), reproduzimos as práticas machistas para obter vantagens na relação de gênero. E assim, vamos naturalizando certas violências no nosso cotidiano.

Lembro da primeira vez que fui chamado atenção sobre a violência de gênero no âmbito doméstico. A situação aconteceu em uma casa na qual compartilhava a convivência com outros homens e mulheres, e por ter muitas pessoas, as tarefas da casa e dos espaços políticos foram divididas entre todos e todas. Não por acaso, nenhum homem se prontificou em ocupar os grupos de cozinha e limpeza, e a função ficou para as mulheres, em sua maioria negras. Já no segundo dia de convívio na casa, uma amiga chamou todas as pessoas para a sala e começou a responsabilizar os homens por não ajudar nas tarefas domésticas e não se prontificar em participar dos grupos responsáveis por essas atividades. 

Para mim esse foi um dia marcante, pois pensei no quão natural era ver mulheres pretas naquele lugar de servir, limpar e cuidar de um espaço que é coletivo. Percebi que pequenos atos como não limpar o que sujei, não arrumar as coisas e não limpar a própria urina fora do vaso, vinha de uma ideia de que eu não seria responsabilizado por aquilo, pois teria alguém para limpar.

Foto: Karolina Grabowska/Pexels.

E mais: percebia que isso era uma constante em ambientes de convivência, onde comíamos primeiro e não estávamos preocupados se as mulheres já tinham comido, não oferecíamos ajuda para cuidar dos ambientes compartilhados e ainda achávamos ruim se a refeição demorasse a ser feita. Essa não-obrigação em cuidar do ambiente doméstico só reforça a ideia machista de que se tem mulher na casa, homem não limpa.

Uma coisa que sempre me intrigou foi perceber que muitas mulheres relatam que tem “mania de limpeza” e que não aguentam ver a pia suja ou sujeira pela casa. Porque eu nunca ouvi de um homem essa narrativa. Para mim, a construção masculina está neste lugar de ser servido, assim como a construção das mulheres negras está nesse lugar de servir. Quando reservamos este lugar exclusivamente para as mulheres negras, estamos reproduzindo a lógica colonial e nos violentando. 

Sabemos que fomos forjados na coletividade e no cuidado com a nossa comunidade, por isso precisamos nos responsabilizar também em rever nossas condutas pautadas na estrutura patriarcal e racista. Esse é um recado que eu estou dando para mim também, pois acredito nesse processo de reflexão com o exercício da prática. Só para não nos esquecermos, as mulheres negras não estão aqui para nos servir.

Foto de capa: Pexels.

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