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Quatro mártires pelos direitos civis nos Estados Unidos numa noite em Miami

Regina King, 50, já conquistou o título de grande atriz por diversas atuações para o cinema e para a TV, tendo prêmios, como o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, pelo filme Se a Rua Beale Falasse (2018) e o Emmy de Melhor Atriz em 2020, pela série Watchmen (2019). Por trás das câmeras, no papel de diretora, ela já mostrou seu talento em Greenleaf (2019), Scandal (2012) e This is Us (2016). Mas finalmente chegou a vez de mostrar seu talento como diretora de cinema, o que ela fez muito bem com o lançamento do seu primeiro longa-metragem, Uma Noite em Miami (2021).

O filme que estreou no ano passado, no Festival Internacional de Veneza, marcou Regina King como a primeira diretora negra a ter uma obra exibida neste festival. Agora, o filme chegou ao Amazon Prime e já está sendo cotado para o Oscar, assim como os atores. 

One Night in Miami (Uma noite em Miami) narra um encontro de quatro grandes ícones americanos na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos: o boxeador Muhammad Ali (Eli Goree), o ativista Malcolm X (Kingsley Ben-Adir), o cantor Sam Cooke (Leslie Odom Jr) e o jogador de futebol americano Jim Brown (Aldis Hodge).

Os quatro mártires. Foto: Divulgação.

Os primeiros minutos do filme são de apresentação de cada um dos personagens, para quem ainda não os conhecia, e os apresenta separadamente, cada um no seu ambiente. E logo por essa apresentação, já percebemos que a crítica ao racismo e à opressão que assolava negros antes e ainda agora, estará totalmente impregnada no filme. 

Contexto

Conhecemos Cassius Clay, nome do Muhammad Ali antes de se converter ao Islamismo, durante uma luta e já percebemos o quanto ele é odiado por sua cor e por acharem que ele é orgulhoso demais. Para a branquitude, um negro não pode sentir orgulho de si mesmo, é considerado incorreto.

Sam Cooke está realizando sua primeira apresentação no Copacabana (The Copa), um dos mais famosos night clubs norte-americanos, que reunia a alta sociedade branca. Ele é o único que pode subir ao palco, sua banda negra é impedida e sua apresentação acaba sendo um fracasso.

Jim Brown está em sua cidade natal visitando um membro da alta sociedade que se diz orgulhoso de tê-lo como membro da comunidade, afinal, Jim era o maior jogador de futebol dos Estados Unidos. Ele é recebido na varanda e oferecem limonada – pra quem não sabe, acreditava-se que os negros deveriam tomar limonada pra clarear a pele – e quando ele se oferece para ajudar o anfitrião numa tarefa, ouve a seguinte frase: “Você sabe que não aceitamos negros dentro desta casa”.

Malcolm X está em casa com sua esposa Betty Shabazz (Joaquina Kalukango), e conversam sobre a saída dele da Nação do Islã e a importância de ter Cassius Clay como convertido ao seu lado para que possa criar um novo movimento.

Após a apresentação de cada personagem, acompanhamos a luta de Cassius Clay (Muhammad Ali) contra Sonny Liston, em 1964. Todos os apostadores e a mídia davam como certa a vitória de Sonny sobre Muhammad Ali, que tinha então 22 anos. E sua vitória foi uma surpresa pra todos, menos para seus fiéis amigos. 

Depois da luta, eles se juntam no quarto de hotel onde Malcolm estava hospedado para comemorar a vitória. O encontro entre os mártires realmente aconteceu, mas o verdadeiro conteúdo das conversas entre eles não é conhecido. 

Foto: Divulgação.

O conteúdo da narrativa utilizada por Regina King e por Kemp Powers (Soul), roteirista do filme e autor da peça homônima lançada em 2013, é fictício. Porém, totalmente baseado no perfil dos ativistas e em conversas que realmente poderiam ter acontecido.

Sam Cooke era um grande cantor, mas que não utilizava sua voz como ativista, afinal, suas canções na época eram brandas e românticas, ideais para fazer sucesso entre os brancos. Malcolm o questionava por acreditar que sua voz e seu alcance eram poderosos demais para não serem utilizados para o ativismo e falar sobre a real vida do povo negro ou para chamar o povo negro para a luta. 

Durante as discussões, cada personagem traz um pouco de sua raiz e de como conseguem se manter no topo, sendo vistos e famosos no mundo, mas ao mesmo tempo sofrendo o racismo e a opressão nos bastidores. Afinal, ter sucesso e dinheiro não muda a cor de uma pessoa e não apaga o racismo.

Jim Brown está abandonando o esporte e iniciando uma carreira como ator em Hollywood. E Sam, explicava como usa seu dinheiro e sua fama para que outros negros possam ter acesso às gravadoras. Malcolm acreditava que este talvez fosse o caminho, mas que era preciso que os três fizessem muito mais com sua popularidade. E foi o que fizeram, no entanto, a ligação deles com Malcolm, que então já era perseguido pelo FBI, os colocou também como alvo da política ainda segregacionista dos Estados Unidos, que os via como ameaça de estado.

Muhammad Ali anunciou sua conversão ao Islã naquela noite.

Ligações externas 

Após assistir ao filme, corri pra Netflix pra conhecer a história de Sam Cooke, que pra mim era o menos conhecido. Assistam ao filme As Duas mortes de Sam Cooke (2019) pra conhecer o importante papel que ele teve para a comunidade negra daquele país e como sua morte é até hoje inexplicada. Quando Sam foi assinado, para a polícia, era apenas mais um negro morto.

Sam estava compondo a canção A Change is Gonna Come (1964), que fala sobre esperança de ver grandes mudanças acontecendo e sobre ser negro e estar sempre oprimido por sua cor.

Confira o trailer:

Ficha técnica

Uma Noite em Miami (One night in Miami)
Ano: 2021
País de origem: Estados Unidos
Direção: Regina King
Roteiro: Kemp Powers
Elenco: Eli Goree, Kingsley Ben-Adir, Aldis Hodge, Leslie Odom Jr., Lance Reddick, Michael Imperioli, Lawrence Gilliard Jr., Beau Bridges, Matt Fowler, Christopher Gorham e Jeremy Pope
Autor da obra original: Kemp Powers
Disponível: Amazon Prime Video

Foto de capa: Divulgação.

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