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Silvania de Deus sobre a coleção “Odysséia” no DFB Festival 2026: “Você precisa se render ao tempo e o grande trunfo é a permanência”

A estilista, multiartista, educadora e articuladora social Silvania de Deus esteve no line-up de estilistas nos desfiles da edição do DFB Festival 2026 e apresentou a coleção “Odysséia” na última quarta-feira, 10 de junho, na Rua dos Tabajaras. “Sobre o trabalho de agora, eu intitulei de Odysséia, que foi o nome da minha primeira marca, da minha primeira loja, mas é também para falar de uma trajetória com muitos percursos, muitos desafios, mas que chega agora podendo, inclusive, marcar o território”. Neste ano de 2026, Silvania de Deus celebra os seus 30 anos de moda autoral.

A Odysséia é sobretudo falar dessa minha trajetória. A trajetória de uma mulher negra que saiu do subúrbio e que marcou um lugar no mundo da moda e da moda autoral que, naquele momento, quando eu comecei nem tinha esse nome. Mas é sobre tudo isso, assim, é… como descrever um um percurso, né? Uma viagem mesmo fantástica com todos os desafios, mas também com muitos anjos, muitos anjos no meio do caminho e eu sou muito agradecida por isso”, declara a estilista e artista visual Silvania de Deus.

Leia a entrevista completa que a estilista Silvania de Deus cedeu à equipe do Site Negrê!

Negrê – Conta pra gente sobre o trabalho que você levou pro DFB Festival…

Silvania de Deus – Sobre o trabalho de agora, eu intitulei de Odysséia, que foi o nome da minha primeira marca, da minha primeira loja, mas é também para falar de uma trajetória com muitos percursos, muitos desafios, mas que chega agora podendo, inclusive, marcar o território, né? Que foi um lugar onde me recebeu e me acolheu com muito amor esse bairro que não era nada disso quando eu cheguei, mas que eu contribui muito com o meu trabalho para que a cidade olhasse para esse lugar com os olhos de charme que eu olho desde sempre. Eu acho que, sobretudo, para a gente entender que rua é extensão de casa, né? E que bairro perigoso para mim é bairro vazio, não é um bairro cheio. Eu cresci num bairro de subúrbio onde todo mundo se amava e se cuidava. Eu acho que essa é uma dos princípios do povo negro, né? Entender que somos uma comunidade, que se a gente não se juntar, a gente não tem força.

Fotos: Calebe Nogueira e Paula Matos/Ducker Studios.

Negrê – Conta um pouco também sobre a sua trajetória…

Silvania de Deus – A Odysséia é sobretudo falar dessa minha trajetória. A trajetória de uma mulher negra que saiu do subúrbio e que marcou um lugar no mundo da moda e da moda autoral que, naquele momento, quando eu comecei nem tinha esse nome. Mas é sobre tudo isso, assim, é… como descrever um um percurso, né? Uma viagem mesmo fantástica com todos os desafios, mas também com muitos anjos, muitos anjos no meio do caminho e eu sou muito agradecida por isso. De alguma forma, eu acho que eu sou muito anjo para algumas pessoas e também tenho os meus! Acho que isso é o simples bonito da vida, né? Mas é também, em lugar de dizer para o meu povo: “Olha, confia aqui que é possível”!

Negrê – Com essa coleção nova, qual mensagem você quer deixar para as pequenas Sils que estão florescendo por aí com a sua moda autoral, a sua identidade, a sua negritude?  

Silvania de Deus – Sobretudo que precisa se render ao tempo! O tempo para mim é o Deus mais sábio! Se não conversar direito com ele, não exercer essa paciência, essa confiança, essa fé, trabalhando a espiritualidade mesmo, você não vai conseguir permanecer e eu acho que o grande trunfo é a permanência.

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Negrê Você tava falando da rua, da ocupação dessa extensão que a rua é da nossa casa. Quão significativo para foi fazer um desfile em frente a tua loja? Fazer trazer esse desfile para cá que aconteceu exatamente nesse espaço da Rua dos Tabajaras.

Silvania de Deus – Ele [o desfile] só foi possível porque antes eu fiz exatamente dessa rua uma passarela: de bons encontros, de beleza, de inspiração, de dizer para essa cidade que a gente, mesmo que a gente vem do outro lado, a gente existe e que a gente vai ocupar essa Casa Grande eles querendo ou não, porque ela também é nossa!

Negrê Quem você imagina vestindo isso a sua coleção e o seu trabalho?

Silvania de Deus – Aí eu vou responder com o título da minha coleção anterior. É para todes! Eu milito, assim, meu objeto de pesquisa sobretudo o corpo. E eu amo corpos. Eu acho todos lindos, eu acho todos importantes, necessários. Então, eu já trabalho com… agora também tem até nome… agênero… há bastante tempo, porque eu sempre acreditei que essa pele chamada roupa que a gente põe em cima da gente, ela tem que ser democrática. Ela precisa ser democrática, sabe? Ela precisa vestir todos os corpos, ela precisa ser acessível. E eu sei que é uma grande batalha, não é simples nem fácil, a gente precisa sempre batalhar por políticas públicas que garanta muitas coisas, por isso, a importância da política, né? Da gente ocupar os espaços mesmo, mas é essa coleção é para toda e qualquer corpo que se sinta a vontade de vestí-la.

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Negrê E a coleção é feita por quem?

Silvania de Deus – Ela é feita por pessoas comuns e correntes. Ela é feita por mãos negras, sobretudo de mulheres. Ela é feita por todo o subúrbio. Ela é feita por mim, que nunca arredou o pé de estar na luta diária. Ela é feita por meu assistente, pelos amigos que chegam junto para estar no corre da ajuda. Ela é feita pela minha costureira que está comigo há 28 anos e que tem o mesmo nome que eu. Ela é feita por por muitas mãos…

Negrê E o que esse desfile não mostra?

Silvania de Deus – O que ele não mostra? Pergunta boa, né?! Eu acho que o desfile é um espetáculo, né? É aquele, o gran finale, né? Mas eu acho que não consegue mostrar o processo, de nascer cada peça, cada roupa, o nível de estresse, o corpo, né? Todo investimento de energia, de tudo o que a gente tem que mover para que um espetáculo aconteça. E, sobretudo, é importante também dizer que nenhum desses movimentos pode ser possível se não for a muitas mãos, por um trabalho em equipe.

Negrê E quais são os planos da sua marca após o DFB? O que teremos de novidades?

Silvania de Deus – Olha, em primeira mão, hein?! Eu acho que sobretudo é lançar a minha plataforma! Porque, na verdade, a Sil é muita coisa, né? A Sil é multiartista. Então, é, dentro dessa plataforma tem também uma marca autoral afro-nordestina. Tem a Sil artista visual, tem a Sil artista têxtil, tem esse espaço incrível que é essa casa, que é a minha casa que eu coloquei como extensão disso tudo, porque foi a única forma deu permanecer, foi tendo colocar a minha casa aí em jogo. E então, eu conto com todos vocês, porque eu não consigo fazer isso só, preciso, sobretudo, das mãos pretas junto comigo, abraçando e… entendeu? “Não precisa você ir mais sozinha.” A gente tá aqui e isso é um convite que eu faço, sabe? Eu acho que a gente acreditou muito nisso que tinha que fazer só, mas está na hora da gente chegar junto, só chegar.

*Essa entrevista feita por Larissa Carvalho e Sávio Moura

Foto de capa: Paula Matos/Ducker Studios.

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