Em entrevista exclusiva ao Negrê, a atriz fala sobre liberdade, maturidade e o direito de contar outras histórias. Com “Mudando de Pele”, ela chega a Fortaleza nos dias 29 e 30 de outubro, celebrando não apenas o que construiu, mas tudo aquilo que ainda deseja ser.
Quantas vezes precisamos mudar de pele para finalmente caber em nós mesmos? Quantas versões deixamos pelo caminho tentando pertencer a algum lugar? E se o problema nunca tivesse sido a nossa pele, mas os espaços que insistiam em nos exigir outra?

É nesse território de descobertas que nasce “Mudando de Pele – um solo coletivo”, espetáculo que marca o retorno de Taís Araujo aos palcos e chega a Fortaleza (CE) nos dias 29 e 30 de outubro, no Cineteatro São Luiz. Escrita pela inglesa Amanda Wilkin, com direção de Yara de Novaes, a montagem acompanha Mayah, uma mulher de quase 40 anos que decide romper com um trabalho, um relacionamento desgastado e, sobretudo, com a obrigação de se diminuir para permanecer. Nessa travessia, encontra Mildred, uma jamaicana de 90 anos que participou das lutas pelos direitos civis, e Kemi, uma jovem que não pede licença para existir. No palco, Taís é acompanhada pelas musicistas Dani Nega e Layla, transformando seu primeiro solo em uma construção coletiva.
Mas há algo particularmente simbólico em assistir a Taís Araujo contar uma história sobre uma mulher que decide mudar. Porque, para quem cresceu acompanhando sua trajetória, Taís também foi, muitas vezes, a primeira imagem de uma possibilidade.
Antes de mudar de pele, foi preciso abrir caminhos
Há uma memória afetiva que atravessa gerações de pessoas negras brasileiras e que, dificilmente, cabe nas estatísticas de uma carreira. Ela mora na sala de casa, na televisão ligada, nas novelas acompanhadas em família e no reconhecimento silencioso de encontrar alguém parecido conosco ocupando um espaço que, durante tanto tempo, parecia reservado aos outros.
Para muitas crianças pretas, entre as quais me incluo, crescer acompanhando Taís Araujo significou crescer diante de uma imagem que contrariava ausências. De Xica da Silva (1996) a Da Cor do Pecado (2004), passando por Viver a Vida (2009), Cheias de Charme (2012) e Mister Brau (2015), a atriz atravessou personagens, linguagens e gerações, ajudando a transformar os imaginários sobre os lugares que mulheres negras poderiam ocupar na dramaturgia brasileira.
Não porque uma atriz pudesse, sozinha, reparar as desigualdades de uma indústria inteira. Mas porque havia algo profundamente importante em vê-la ali. E também em reconhecer que o seu legado pertence a uma continuidade de mulheres negras que abriram caminhos antes dela e ampliaram possibilidades para as que vieram depois.

Em entrevista ao Site Negrê, perguntei o que a Taís de hoje precisou desaprender sobre ser atriz, mulher e pessoa negra para experimentar uma liberdade que talvez a menina que começou tão jovem ainda não conseguisse imaginar. Sua resposta deslocou a pergunta: não se tratava exatamente de desaprender.
“Eu acho que eu não tive que desaprender. Eu acho que eu estou vivendo a contemporaneidade, vivendo a minha época e vivendo as mudanças da minha época. E estando muito próximo a essas mudanças. Então, são aprendizados, né? Isso é muito bonito”. – Taís Araujo
Talvez mudar de pele não seja abandonar a própria história. Talvez seja justamente permitir que ela continue.
O direito de existir para além da dor
Durante muito tempo, personagens negras precisaram justificar sua presença em cena por meio do sofrimento, da resistência ou de conflitos associados ao racismo. O espetáculo “Mudando de Pele” propõe outro horizonte: o direito à complexidade.
Taís conta que procurava há anos uma história sobre mulheres negras em que não estivesse necessariamente organizada em torno da sobrevivência ou dor. Não se trata de ignorar o racismo, mas de compreender que a vida negra não começa nem termina nas violências que a atravessam. Também somos desejo, humor, contradição, amor, vaidade, insegurança e reinvenção. Não precisamos transformar cada experiência em uma lição coletiva sobre raça.

Ao ser questionada sobre o que ainda falta conquistar para que personagens negras possam ser frágeis, contraditórias, desejantes e, sobretudo, imperfeitas, Taís reconhece um universo de possibilidades ainda pouco explorado.
“Tem um universo vasto para a gente desbravar, no que diz respeito à dramaturgia, em relação a nós, mulheres negras. Porque muito não foi dito, sabe?” – Taís Araujo
A atriz enxerga no presente a oportunidade de ampliar esse repertório, com histórias de felicidade, sucesso, amor e subjetividade. E há uma questão fundamental nisso: quem segura a caneta?
Durante décadas, a dramaturgia brasileira foi amplamente construída a partir de perspectivas que nem sempre reconheceram a humanidade negra em sua totalidade. Não se trata apenas de ocupar a tela ou o palco, mas de participar da construção das narrativas e disputar o direito de existir para além dos estereótipos.

Talvez uma das maiores potências de “Mudando de Pele” esteja justamente nessa escolha. Mayah não precisa salvar o mundo. Precisa, antes, encontrar a si mesma. E isso já é uma história suficientemente grande para ser contada.
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“Essa expectativa é de vocês, não é minha”
Há uma cobrança particular dirigida às pessoas negras que alcançam reconhecimento público. Quanto mais se tornam referências, mais parecem perder o direito à contradição. Espera-se que sejam exemplares, fortes, conscientes e disponíveis. Como se abrir caminhos significasse assumir a responsabilidade de nunca mais poder mudar de direção.
Durante nossa conversa, questionei Taís sobre essa cobrança silenciosa e a possibilidade de se libertar da imagem que outras pessoas construíram dela. A resposta veio acompanhada de uma liberdade que, segundo a atriz, também se aprende com a maturidade.

“Olha, gente, essa expectativa é de vocês, não é minha, sabe?”
“São mais de 30 anos de carreira e é isso, sou muito orgulhosa, muito feliz do que eu construí. E tem tanta coisa que eu ainda quero construir, sabe? Então, a maturidade realmente é uma benção, sem dúvida nenhuma. Mudando de Pele faz parte desse desejo meu artístico de contar outras histórias.” – Taís Araujo
Existe uma diferença entre reconhecer o legado de uma mulher negra e transformá-la em prisioneira desse mesmo legado. Taís sabe o que construiu, mas também reivindica o direito de continuar desejando outras coisas. Afinal, mulheres negras também envelhecem, mudam de ideia, reformulam prioridades e descobrem novas possibilidades de existir.
E, por falar em envelhecer, a conversa ganhou um momento de leveza quando perguntei de qual versão de si mesma ela mais demorou a se despedir.
“Nossa, o que eu mais demorei a me despedir? Acho que é a minha juventude, assim, porque eu vou fazer 48 anos, mas na minha cabeça eu tenho 27”. – Taís Araujo
Entre risos, completou: “Da minha juventude está sendo difícil de me despedir”. A resposta nos devolve à mulher por trás de tantas personagens e tantos significados. Porque é possível admirar profundamente uma artista sem transformá-la em monumento. Monumentos permanecem imóveis. Pessoas vivem. E a atriz Taís, felizmente, continua em movimento.
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Um encontro com Fortaleza
Em uma cidade cuja presença negra ainda enfrenta apagamentos históricos, disputar o direito de narrar a própria existência continua sendo uma questão urgente. É nesse contexto que a chegada de “Mudando de Pele” ao Cineteatro São Luiz ganha outras camadas de significado.
Ao ser interpelada sobre que encontros esperava provocar com as mulheres negras que estarão na plateia, Taís ampliou o convite:
“Vai ser um encontro lindo em Fortaleza, com as pessoas negras de Fortaleza. E com as pessoas não negras também, porque essa peça atravessa muitas questões que dizem respeito à negritude, sim, mas não só, não exclusivamente”. – Taís Araujo
E acrescentou: “Isso é o mais legal, porque a gente consegue falar através da perspectiva de uma mulher negra para todos os tipos de pessoas, homens e mulheres. E isso é, eu acho, um salto na dramaturgia interessante”.
Durante muito tempo, histórias protagonizadas por pessoas brancas foram apresentadas como universais, enquanto narrativas negras precisavam ser classificadas e justificadas como experiências particulares. “Mudando de Pele” aponta para outra possibilidade: uma história não precisa abandonar sua identidade para dialogar com o mundo.

Para quem, como eu, cresceu acompanhando Taís, existe ainda uma emoção particular nesse encontro. Aquela criança preta que um dia se reconheceu na imagem de uma atriz negra talvez não tivesse dimensão de tudo o que aquela presença significaria ao longo dos anos.
Hoje, é possível olhar para sua trajetória com admiração, memória e afeto, mas também com o desejo de que Taís continue livre para contar histórias que ainda não conhecemos. Porque não basta celebrar os caminhos que ela abriu. É preciso reconhecer seu direito de continuar escolhendo para onde deseja ir.
Não precisamos permanecer os mesmos para continuar pertencendo a nós mesmos.
E é com esse convite que Taís Araujo chega à Capital cearense nos dias 29 e 30 de outubro. Para encontrar Mayah, reconhecer nossas próprias transformações e, quem sabe, descobrir que ainda existem muitas versões de nós esperando para viver.
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Confira todos os detalhes!
Espetáculo “Mudando de Pele – um solo coletivo” com Taís Araujo
Duração: 80 min
Classificação: 14 anos
Datas: 29 e 30 de outubro de 2026 (quinta e sexta-feira)
Horário: 19 horas
Local: Palco do Cineteatro São Luiz
Endereço: Rua Major Facundo, 500 – Centro, Fortaleza (CE) – CEP: 60025-130
Entrada: R$ 100,00 (meia) | R$ 200,00 (inteira)
Ingressos: Sympla ou bilheteria do Cineteatro São Luiz
Foto de capa: Nanna Moraes.
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Comunicólogo formado em Comunicação Social pela Universidade 7 de Setembro (UNI7). Sua prática atravessa escrita, pesquisa e produção cultural, com foco nas narrativas territoriais e periféricas construídas a partir das experiências nas comunidades. É do bairro Moura Brasil, em Fortaleza (CE), território que atravessa e fundamenta sua forma de ver, pensar e produzir. Atua como pesquisador na Kuya – Centro de Design do Ceará e possui experiência em redação, pesquisa e crítica de arte em diálogo com a Pinacoteca do Ceará. Integra iniciativas como o Rede Oitão, jornal comunitário do bairro Moura Brasil, além do Site Negrê, contribuindo para a circulação de narrativas sobre cultura, território e memória no Nordeste.




