Ancestral Saberes

A capoeira como rito ancestral e filosofia de vida

Iêêê viva meu mestre, camará! Iêê, quem me ensinou! Salve, salve, Capoeira! Muito mais que uma dança, esporte ou luta, a capoeira é uma filosofia de vida. Através dos movimentos do corpo desafia a gravidade nas acrobacias. Como Besouro mangangá, o capoeira voa. Corpo em movimento, hora no vento, outrora no chão. O ritmo, a ginga e a malemolência do capoeirista, quem dita é o bater do berimbau, e são três.

Gunga, médio e viola, do mais grave ao mais agudo, é aparte que mais gosto. A sinfonia se completa com caxixi, atabaque, reco-reco, agogô, pandeiro, palmas e coro, principalmente, pois é feita de gente. O capoeirista é camarada, é comunidade e resistência.

O capoeirista tem uma forte relação com o corpo, ele é a sua memória e o seu local de fala. Ele traz um passado de muito sangue, suor, lágrimas e dor. Corpo acorrentado, corpo amordaçado, corpo queimado, corpo traficado, corpo esfalecido. Reis e rainhas tirados de suas soberanias para cortar cana no canavial.

A ginga dá o equilíbrio necessário para projetar o corpo, para girar, atacar, defender e saltar. No jogo, são dois corpos em movimento se estudando. Vacilou, caiu. A rasteira é ligeira e o mandingueiro simula um golpe, mas faz outro. Faz parte do jogo. E o bom capoeira quando é pego sabe cair. Astuto, dá a ‘volta ao mundo’, aperta a mão do companheiro e começou outro jogo. O capoeirista é o camarada do bom combate e faz do seu corpo arte libertária.

É um eterno viajante do tempo. Na roda, ele resgata o seu passado quando entoa seus cânticos de vidas passadas. Do seu mestre ele recebe a bênção e dos companheiros recebe o axé. Entre uma pernada e outra, ele chega no Mercado Modelo, na Bahia de todos os santos, pede a benção na Igreja do Bonfim. Já noutro giro ele encontra Aidê, negra africana, fugindo para Camujerê. E o toque do berimbau muda, agora trota. É o sentinela avisando – A cavalaria tá vindo, negrada! Param a luta e emendem o samba de roda – Eles não sabem que a gente luta pra se libertar.

A dor os uniu e a coragem os fez guerreiros. O corpo foi escravizado, mas a alma sempre foi livre. Capoeira virou bandeira. Capoeira venceu! E a cada vez que um berimbau toca, capoeira vence. É a luta da resistência, é rito ancestral. E o capoeira segue cadenciado pelo berimbau, cada toque é um sinal, cada som traz um significado. O capoeirista sabe de onde veio, então não pode se limitar apenas a luta, dança ou arte. Capoeira é filosofia de vida e símbolo de resistência. Salve, salve, meu mestre Índio! (Ernesto Cavalcante).

Foto de capa: Divulgação/Pexels.

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