Colunas Covid-19

A cor dos 100 mil mortos: Covid-19 e a população negra

Eu queria escrever algo leve. Hoje eu queria escrever algo leve ou então não escrever nada. Mas não foi uma escolha. A realidade não me deu escolha. A gente precisa falar sobre a cor dos 100 mil mortos pela pandemia do novo coronavírus.

O título deste texto vem do episódio de hoje do Café da Manhã, um podcast diário, fruto da parceria entre a Folha de São Paulo e o Spotify, que discute, comenta e analisa notícias e aspectos de notícias que merecem destaque (recomendo!). Quem me segue no Instagram sabe que eu acompanho o Café religiosamente, faz parte do meu ritual matinal.

Quem me segue no Twitter me viu anunciar, ontem à noite, que hoje provavelmente não teria coluna, dado um bloqueio criativo. Hoje sentei na mesa do meu quarto para tomar café um pouco depois das nove e, como de costume, abri o Spotify para dar play no episódio do dia.

Partindo da história do George Francisco Gomes, o Papai, homem negro, ex-motorista da Folha de São Paulo, uma das mais de 100 mil vítimas letais da Covid-19 no Brasil, o podcast analisa o recorte racial por trás dessas cifras assustadoras. A convidada para comentar o tema foi Jurema Werneck, mulher negra e lésbica, médica e diretora executiva da Anistia Internacional no Brasil.

Segundo o levantamento feito pela Folha, homens foram 58% dos mortos pelo novo coronavírus no Brasil. Cerca de 65% das vítimas morreram em hospitais públicos. Aproximadamente 31% dos registros dessas mortes não dispõem de informação sobre a raça dos mortos. Contudo, dentre os registros que trazem esse dado, pretos e pardos somam 59% das vítimas (podendo ser um número maior que esse).

Diante desses dados, as perguntas que se colocam são: por que negros são mais vitimados pelo novo coronavírus? Como o fator de raça afeta os indicadores de saúde dos brasileiros? De que forma raça e saúde pública se encontram no Brasil?

A primeira frase da entrevistada ecoou durante todo o episódio. Ela disse: “O atendimento de saúde no Brasil se encontra com a questão de raça na ausência”. O Sistema Único de Saúde (SUS), que deveria ser uma garantia legal disponível a todos os cidadãos do país, simplesmente não se apresenta de maneira plena em todos os lugares. Tanto os recursos como os procedimentos burocráticos internos do SUS se dão de modo a dificultar o acesso do brasileiro que mais depende dele, a saber: o brasileiro pobre e morador de favela (cuja maioria, em todo o território nacional, é negra).

Não é à toa, portanto, que pipocaram manchetes nas mais variadas capitais brasileiras sobre as mortes por Covid-19 se concentrarem nas periferias e favelas. Por um lado, o racismo que estrutura todas as relações no Brasil produz uma desigualdade no tratamento recebido por pessoas negras mesmo nos espaços de atenção básica à saúde. Por outro, o racismo também atua na produção material e na organização da vida em sociedade, de modo que a maioria da população negra vive em condições que as colocam em situação de maior risco.

Em outros termos, estamos aqui falando de um tipo de manifestação do racismo contemplado pela noção de racismo ambiental. Trata-se da ideia de que o racismo opera no planejamento urbano e nos espaços de tomada de decisão de modo a distribuir, de maneira desigual, recursos, benefícios e prejuízos, com base no fator racial. Pessoas negras não apenas vivem menos como também vivem pior. Não somente por conta da violência urbana e policial, mas também porque moram pior, alimentam-se pior e trabalham mais em ocupações informais ou precárias, visto que o acesso à educação também é dificultado para essas pessoas.

Isso não é por acaso, isso tem a ver com a forma como os responsáveis pela gestão da sociedade distribuem os recursos. É por isso que, de acordo com Werneck, todos os indicadores referentes à saúde são piores para a população negra. Ser negro e pobre no Brasil podem ser considerados fatores de risco. Uma pesquisa do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), por exemplo, afirmou que no Brasil, pessoas mais pobres e menos escolarizadas são quase tão vulneráveis ao novo coronavírus quanto os idosos acima de 60 anos e as pessoas com outros indicadores de comorbidade.

A Covid-19 chegou ao Brasil pelos bairros ricos, vinda de avião da Europa, mas chega às suas consequências letais com indiscutível maior frequência entre os pobres, os pretos, os desassistidos. Nesse sentido, a trajetória do massacre contemporâneo segue mais ou menos o mesmo itinerário do genocídio iniciado há pouco mais de 500 anos

O mesmo racismo que outrora fundou esse país, operou e segue operando diariamente para organizar e produzir uma realidade em que a vida das populações não-brancas esteja sempre ameaçada. É esse racismo que decide sucatear os serviços públicos de saúde, onde a maior parte das pessoas negras do país busca atendimento. É também esse racismo que escolhe não levar os poucos recursos que tem até as periferias, mesmo quando tudo indica que é lá que esses recursos são mais necessários.

Não parece sensato, portanto, supor que os dados se apresentam por acaso, ou de maneira aleatória. No mesmo raciocínio, não me parece exagerado pensar que a omissão deliberada da gestão federal na pandemia do novo coronavírus. Se as mortes só estivessem acontecendo nos bairros das elites brancas e não nas favelas, será que estaríamos há quase três meses sem um Ministro da Saúde titular? Ou uma atuação do Governo Federal no sentido de ativamente sabotar as políticas de isolamento? De prescrever medicação que, além de não ter benefício comprovado, pode trazer mais riscos? De dificultar a distribuição de recursos para o combate à pandemia? E de atrasar e dificultar ainda mais o acesso da população a um auxílio emergencial visivelmente insuficiente?¹

A Covid-19 permite que Bolsonaro veja seu projeto necropolítico de extermínio da população negra ser executado sem que ele precise se esforçar, flexibilizar novas leis ou operacionalizar as forças policiais para isso. A vulnerabilidade das populações negras, bem como a consequente maior taxa de mortalidade, tem a ver, sim, com o acúmulo de 500 anos de produção de uma realidade mortífera para pessoas como nós; mas tem a ver também com uma negligência ativa da gestão estatal hoje. Não esqueçamos que a negligência é uma outra face da necropolítica.

Foto de capa: Marcello Casal Jr./Agência Brasil


¹ É importante pontuar que, mesmo insuficiente, o valor de 600 reais das parcelas do Auxílio Emergencial foi uma conquista da oposição ao Governo, sobretudo da esquerda. A proposta inicial do governo Bolsonaro, dentro da política liberal favorecedora de bancos do Paulo Guedes, era de 200 reais.

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