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Como é bonito e complexo entender a dimensão dos afetos…

Atualizado às 20h13 do dia 24/12/20

É sobre isso. Como é bonito e ao mesmo tempo complexo entender a dimensão dos afetos… pra mim, enquanto negra. Para nós, enquanto negras, negres* e negros. Nós sabemos. Já sabemos que há tanta negação de oportunidades em nossas existências, de vivências que deveriam ser básicas no cotidiano e na vida interpessoal. Por isso, não só a necessidade de falar de oportunidades dentro da sociedade; mas de falar de vontades dos nossos íntimos, de um direito que também é nosso: o direito ao afeto.

Como colonizados que (infelizmente) somos, em consequência desse projeto asqueroso – a Colonização – para exterminar o nosso povo preto, durante muito tempo, aceitamos situações terríveis em nossas vidas. Ao ponto de normalizarmos e tudo o que acontece – gerando incômodos, dores e feridas (difíceis de serem tratadas até hoje) em nossas vidas – é normal. “É a vida”, muitas vezes eu ouvi. “Eu também passo pela MESMA coisa”, muitas vezes eu também ouvi. E ouvi de pessoas brancas. De amigas brancas. Mas não passam pela mesma situação não, preciso ser honesta. E serei sempre.

Durante muito tempo, aceitamos ser mal tratadas, ser preteridas, não assumidas publicamente, ser colocadas como segunda opção ou, muitas vezes, a última. Ou se não aceitamos esses tipos de situações, internalizamos que esta é e sempre será nossa realidade de vida. Como muitas vezes eu, amigas e companheiras negras de luta internalizamos. Ano após ano. Uma narrativa feia que não foi escrita por nós, mas que foi escrita por quem quer nos exterminar. Por um sistema que nos quer afundar em tristeza profunda (banzo) cada vez mais. Porque é isso que eles querem e projetaram. É uma máquina de extermínio de gente preta.

E, dentro desse contexto horrível e doloroso, com consciência racial, tempo, conversas, vivências, muita terapia, compartilhamento de experiências, vamos percebendo que não; não somos obrigadas a comprar essa narrativa asquerosa e injusta. A de que a mulher negra não merece afeto! Porque não é verdade. A mulher negra merece afeto imensamente. É por isso que eu digo e continuarei dizendo: Jamais deixe que alguém questione esta verdade e lhe diga o contrário.

Entendendo que é possível ser cuidada

Durante muito tempo, eu não entendia que era possível ser cuidada. Eu nem sabia que isso poderia acontecer, de forma digna, me refiro. Rodeada de relações tóxicas com pessoas violentas e incorporando comportamentos violentos, seja igual, mais ou menos como pessoas ao meu redor; eu me vi nesse limbo de não sentir o cuidado como algo que poderia fazer parte da minha realidade de vida. E sim, de que eu deveria estar disponível o tempo inteiro para cuidar dos outros e de suas dores: sejam pessoas negras e/ou brancas. Pessoas que fazem parte da minha vida e que eu amo imensamente.

Mas quanto a mim mesma, eu ouvia dos outros e dizia a mim mesma sempre que eu deveria me bastar; ser suficiente, ser forte, ser invencível. Forte o tempo INTEIRO! Quem é forte o tempo inteiro, meu povo? Quem não se sente vulnerável em algum momento do dia, ao final dele ou em alguma fase da vida? Pois eu atesto que hoje eu tenho esse direito tanto quanto mulheres brancas que se percebem cansadas ou até como outras mulheres pretas que se percebem no mesmo estado também… Eu posso sim ser vulnerável. Eu posso sim precisar de cuidado. E está tudo bem. Estará tudo certo.

Foto: Git Stephen Gitau/Pexels.

Sim, a mulher preta é humana tanto quanto você. E isso não é, absolutamente, nenhuma novidade nem conceito novo dentro da nossa luta cotidiana. Lembro bem de ter despertado muitas ideias com o livro Memórias da Plantação – Episódios de Racismo Cotidiano (2019), de Grada Kilomba, e que me chamaram muita atenção. E teve uma fala que me marcou profundamente e eu não esqueço: “Não desejo ser super-humana mais do que desejo não ser subumana”. E é isso: não desejo nem ser tratada como super-humana nem como subumana. Apenas como humana. Como todo mundo. Simplesmente o básico.

Dito isso, eu queria compreender a ideia seguinte… Então, por que as pessoas não entendem que podemos e somos sim vulneráveis? Vocês sabem que isso é também um direito que nos negam? Pois é… é um direito e um direito que faço questão de abrir a boca e falar sobre ele. Reafirmar sobre ele. Se preciso, escrever e registrar sobre ele.

Quando estive do outro lado do oceano, quando estive no lar dos meus ancestrais, quando estive na minha primeira casa (África), eu pude entender uma série de verdades. Verdades estas que me haviam sido negadas e retiradas com o processo de colonização nesse país que foi fundado às custas de sangue negro e indígena. Percebi o quão realmente somos colonizados e temos que lutar contra e para mudar isso, praticamente a vida inteira. É uma existência toda pra se desconstruir dessas mentiras da colonização.

Infelizmente, eu percebi inúmeras questões quando estava bem longe do local que nasci e das pessoas que mais convivi. Eu estava do outro lado do Atlântico. E não que pessoas da convivência me negaram o afeto por completo nas relações. Mas do outro lado, eu pude observar a minha realidade de longe. A sensação era de observar a ilha fora dela. E assim, vivenciei e refleti. Revisitei situações do passado, analisei relações e percebi que eu não poderia aceitar menos do que eu merecia. Percebi isso profundamente. E foi transformador. Eu me revolucionei. Revolucionei meus afetos, minhas relações e minha existência.

Marcas e feridas

Contudo, com o passar do tempo e de inúmeras seções de psicoterapia, você vai se dando conta das suas marcas e feridas. Cada vez mais. É um caminho sem volta. Por vezes, libertador. E outras vezes, aprisionador. Porque saber demais dói, rasga e machuca… saber demais é ter consciência de si, ficar íntima com a própria história e se dar conta de quem você é. Do quanto está ferida, marcada, rasgada, pulsando, pedindo cura… Precisando de cura!

Foto: Anna Shvets/Pexels.

Durante muito tempo também, eu pensava que ser merecedora do afeto de alguém era travar uma batalha constante, uma luta diária a se vencer dentro das relações. Que eu tinha que provar, demonstrar, fazer a outra pessoa da relação perceber isso. Que eu estava ali por ela, para ela e por nós. Talvez, não estava por mim. Ou estava porque, de certa forma, mendigava afeto. E por mais pequeno que fosse o retorno, já era algo. Eu já tinha algo. Como desenvolvemos uma mentalidade tola que nos diz que é assim que tem que ser… e, definitivamente, hoje vejo que não tem!

Então… não, não há espaço para o desafeto na minha vida e das minhas irmãs pretas. Não deve haver espaço para pessoas violentas, para relações tóxicas. Com o tempo, nós vamos aprendendo e percebendo em quais relações e com quais pessoas que queremos estar junto, com qual afeto queremos nos inundar. Então, a tolerância à violência vai diminuindo. E você vai dando mais sentido a sua existência pelo fato de você compreender de que não deve haver espaços para violências em suas mais diversas naturezas. Definitivamente, não há espaço…

E, por último e jamais menos necessário, eu só posso encerrar esse artigo com uma frase que postei em um tweet e circulou durante algumas semanas. “Mulher preta merece ser mimada. É reparação histórica”. Que a ideia dessa frase realmente ecoe dentro e fora da comunidade negra. Seguimos construindo juntos.

*Linguagem inclusiva. O site Negrê opta por utilizar o “e” para neutralizar o gênero da palavra e incluir àqueles que não se identificam com feminino ou masculino.

Foto de capa: Avonne Stalling/Pexels.

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