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E quem é que ama gente violenta?

Desde a estreia da 21ª edição do Big Brother Brasil (BBB), muitas discussões e questões têm sido levantadas acerca de diversas opressões no decorrer da primeira semana do reality no ar. Na edição deste ano, já sabemos que há uma participação histórica de nove negros no elenco. O que, pela primeira vez, me chamou atenção para acompanhar o reality. Pensei que haveria um aquilombamento e os negros seriam fortes aliados entre si.

Então, essa idealização começou a “desmoronar”. Lucas errou com os participantes e seus irmãos pretos. Como punição, passou a ser isolado pelo restante da casa, mesmo pedindo desculpas por três dias seguidos. Ele tentava se redimir, mas Karol Conká e os outros não davam espaço para o nosso irmão. Foi aí que as atitudes da preta começaram a ser julgadas no tribunal da internet. Houve surtos, houve violências. Ficou uma dicotomia entre Lucas e Karol. Quem dos dois é o mais violento? E mais, faço outra pergunta: E quem é que ama gente violenta? Essa questão tem rondado meus pensamentos nesses últimos dias. Não só com discussões envolvendo o BBB, mas discussões da vida e das vivências.

É bem provável que muitos de nós tivemos que conviver durante um tempo ou até hoje com pessoas violentas ao nosso redor. Atitudes abusivas, certamente, fizeram ou fazem parte do roteiro de vida de muita gente. E, olhando pra dentro da nossa comunidade (negra), eu falo de nós, do nosso povo! Podemos ser pessoas violentas ou estamos convivendo com este tipo de pessoa. É muito triste olhar pra essas duas realidades e perceber que elas estão bem pertos de nós.

Violência pela violência

Durante a terapia dessa semana com minha psicóloga negra, foi impossível não chegarmos aos assuntos do BBB. Eu não esqueci o que ela especulou sobre o que pode acontecer com a carreira de Karol. Esse é um ponto. Mas o que ficou martelando na minha casa durante minha volta pra casa foi: nós estamos praticando a mesma violência que Karol veio fazendo nesses dias com o Lucas, a do cancelamento! Minha terapeuta me apontou pra uma questão simples e direta: a violência para conter a violência. O que estamos fazendo com a Karol Conká? O mesmo que ela esteve fazendo com o Lucas? Por quê? A que ponto chegaremos?

Uma grande problemática que percebo no momento em que escrevo é a sociedade usar como um exemplo geral a atitude violenta de uma só pessoa negra, que em si é/está adoecida, em uma situação x. Olha, é realmente um problema, pois nós (população negra) somos imensamente diversos e estamos adoecidos em diversos níveis. Adoecidos pelas opressões e uma delas, sabemos, que é o racismo! Sem mais.

Lembro de uma vez em que presenciei um homem negro (que abraçava o movimento negro e me respeitava enquanto mulher negra) abraçando um outro homem negro (que havia sido abusivo comigo) numa reunião com pessoas pretas na minha cidade. Lembro daquilo ter me violentado de uma forma, que ocasionou um gatilho péssimo pra mim. Eu me sentia violentada, eu me sentia traída. Como abraçar alguém que um dia foi abusivo? Naquele ano pra mim, aqueles dois estavam cancelados da minha vida e da ideia que eu vinha desenvolvendo ano após ano: o meu povo, a minha comunidade.

Foto: Mateus Souza/Pexels.

Hoje, repenso minhas reações e atitudes quando sou violentada de alguma forma. Porque nós convivemos com a violência, em suas diversas formas. E cada pessoa tem sua forma de agir, reagir e se proteger emocionalmente desse furacão e dessas armadilhas tóxicas. Acaba sendo essencial buscar sempre maneiras de se proteger, mesmo que aquilo signifique se afastar da pessoa, não apoiar mais o seu trabalho e até mesmo cancelá-la.

Mas reagir contra a violência com a mesma (ou uma bem pior) violência? Onde será que vamos chegar reproduzindo violência como defesa? Se esse ciclo continuar se repetindo, o nosso povo (preto) não vai parar de sofrer violências! Então, teremos avançado o quê enquanto comunidade? Depois de reflexões particulares, conversas terapêuticas e encontros ancestrais, começo a pensar que o melhor caminho seja o caminho da não-violência. Eu sei, é difícil pensar assim. É difícil pensar em agir pacificamente. Por que, afinal de contas, quem é que ama gente violenta?

Foto: Alex Green/Pexels.

Quando me proponho a refletir para mudar a mim mesma e modificar estruturas que massacram o meu povo, penso sempre na descolonização dos processos. Sinto que esse é parte do caminho. Porque, enquanto continuarmos com a violência ensinada pelo colonizador, vamos continuar reproduzindo violências entre nós mesmos. Lembrando que, estamos adoecidos e, muitos de nós, tentando se curar. Penso que o que podemos fazer para nos tirarmos desse abismo emocional de violências repetitivas é acolher os nossos irmãos adoecidos. Porque somos um povo e não podemos mais nos violentar! Que fique escurecido entre os nossos e expandido dentro da nossa comunidade o seguinte: Preto(a) não deveria violentar preto(a)!

Foto: Alex Green/Pexels.

Foto de capa: Alex Green/Pexels.

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