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Por quê é tão difícil ser mãe de preto?

Tristeza, dor, medo, angústia, pavor… A verdade é que, não é fácil criar uma criança preta. Não é fácil gerar uma, ou sonhar com seu futuro. E infelizmente, todos esses sentimentos, gritam no coração de uma mãe, a partir do momento em que ela pega seu filho no colo, e ver que ele é preto(a). É bem verdade que toda mãe, ou quase todas, dariam a vida para não ver o filho sofrer. Decepções amorosas, puberdade, demissão, falhas, arrependimentos… Existem coisas que muito dificilmente não iremos passar no decorrer da nossa vida e isso é um fato! E por mais que no final isso nos fortaleça, no fundo, o sonho de toda mãe, é ver o filho com a vida perfeita, sem nenhum chorinho se quer.

O fato é, mãe de preto sabe que o filho não vai poder sonhar. Sabe que, se for homem e for ao shopping, raramente não será seguido pelos seguranças por passear como todos os adolescentes, afinal, com essa cor, ou é ladrão, ou traficante, se der sorte pode até virar um pagodeiro ou jogador de futebol. E se for mulher? Ah, se for mulher e conseguir ir a Paris, como muitas jovens românticas sonhadoras, com certeza estava se prostituindo e foi levada por um “gringo”. Mas mãe, posso ser atriz? Claro que pode! Mas se contente com o papel da empregada ou da sambista. Você também pode, meu filho, imagina que legal você interpretar o chefe do morro! Afinal de contas, onde já se viu loiro do olho azul, traficante de drogas? Não existe! Só médico, engenheiro, juiz, empresário, enfim. Mas vamos lá, antes de começar a falar, de fato, a tristeza que atormenta o sublime amor de uma mãe nesse mundo racista, preciso falar um pouco da minha história.

Bem, meu nome é Rhaissa, tenho 25 anos e sou a mais recente mãe do bebê mais lindo do mundo. Me desculpem as outras mães, mas não existe criança mais querida como a minha Sofia. Brincadeiras à parte, confesso que, por medo, no fundo do meu coração eu desejava que a Sofia tivesse puxado o “lado branco” da minha avó paterna. Sim, eu amo muito minha filha! Não, eu não quero ver ela sofrer e sim, tremia de medo só de imaginar que minha filha iria sofrer por conta da cor da pele.

Todavia, para falar do meu lado materno, preciso antes, falar da minha infância. Por volta dos 12 anos, minha avó me falou que eu era negra. Não consigo lembrar muito bem quem estava comigo, mas lembro que fiquei tão triste com aquela notícia que eu falei: “mamãe, eu sou negra?” Minha mãe prontamente falou que não, eu sou morena! Morena! É impressionante como essa palavra tira o “peso” que dar chamar uma pessoa de negra! Preta então, Deus me livre! Fiquei curiosa e descobri que o significado dessa palavra significa, resumidamente, um tom de marrom encontrado entre o branco e o pardo. Pardo! Outra palavra linda usada para tirar o “horror” que é ouvir alguém dizendo a verdadeira cor da sua pele.

Pois bem, o tempo ia passando e o baque daquelas palavras ainda ruíam não minha cabeça. Mas por quê era ruim ser preta? Sempre estudei em escolas particulares tradicionais de Fortaleza e, infelizmente, eu não tinha colegas da minha cor. Quando tinha, era um pontinho preto em meio a um universo branco. Aos 11 anos, participei de um projeto social em um bairro carente e uma criança humilde, falou que iria cortar meus cabelos para lavar as louças. Engraçado, as mesmas piadas que eu ouvia na minha escola “de rico”. Então a questão não é social, é racial mesmo. O trágico é que uma vez o responsável por essa brincadeira foi o único garoto que tinha a mesma cor que eu. Sei lá, acredito que agir como os racistas o fizesse acreditar que ele nunca seria o alvo. Triste! Errôneo mecanismo desesperado de defesa!

Na minha quarta série, uma professora fez uma piada racista comigo, o que fez minha mãe, em um ato de desespero, caminhar mais de uma hora em direção à escola pra tirar satisfações com a “tia racista”. As piadas com meu cabelo me fizeram sonhar em alisar, relaxar, enfim, mudar a textura desse cabelo que para muito, mais parece “uma palha de aço”. Mamãe não é negra, mas minha avó é. Mamãe me conta que quando minha avó ia ao parque com ela e minha tia, sempre as pessoas achavam que ela era a babá das filhas. Na adolescência/juventude, meu interesse afetivo foi sempre voltado aos rapazes brancos. E se casasse? O ideal seria com um branco! Até porque, ter filho preto não dar!

Falar que eu estou “mais branca”, sempre foi um elogio e, “não queira um filho negro porque, não é preconceito, mas imagina como o bichinho ia sofrer na escola”, também era natural de ouvir. Na fase adulta, já acharam que eu era prostituta, quando eu passei seis meses na Suíça. Nos Estados Unidos, me pediram para eu sambar porque qual mulher brasileira e preta não samba? Antes de vir para os Estados Unidos, meu esposo passou por volta de um mês trabalhando de Uber e um dia, em uma comunidade, a polícia o parou e revistou todo o carro. Porque com o carro dele, preto, na comunidade, com certeza vendia drogas.

Eu poderia citar inúmeras histórias tristes que enfrentei só por ter a cor da pele que tenho e o sentimento de desigualdade que eu experimentei durante todas as vezes que passei, mesmo que com um olhar torto em minha direção, por essa situação. Mãe preta ama incondicionalmente como toda mãe. Na realidade, me arriscaria dizer que ama até mais. Isso porque o amor da de uma criança preta ele tem que vir acompanhado de uma garra sobrenatural, uma força capaz de ser partilhada todas as vezes que o seu filho contar que sofreu preconceito. Força para falar para o filho que mesmo que o digam o contrário, ele poderá ser o que quiser. Coragem para dizer, que ele terá que estudar mais que os outros, mas ele também pode ser médico. Terá que trabalhar mais, porém também poderá dar volta ao mundo, assim ele queira.

Dói, mas infelizmente o nascimento de um bebê preto traz consigo um sofrimento inevitável. Inevitável porque não precisa ele falar, se expressar, andar… A cor da pele dele é tudo o que precisam para arrancar lágrimas dos seus olhos. Não é à toa que em mesmo em um país com a maior parte da população negra, só conseguimos enxergar, de fato, onde todos eles estão quando por algum motivo, assistimos um programa policial, um filme que relata o crime, ou uma matéria que fale sobre o sistema carcerário brasileiro. Eles estarão lá, eles sempre estão lá. Não é à toa que segundo o Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN), mais de 60% do sistema carcerário é composto por jovens pretos.

Acredito eu, que talvez seja mais fácil “aceitar o seu destino”. Destino esse que significa aquilo o que a sociedade doente impõe. É mais fácil conquistar uma roupa legal roubando, “estudar é muito chato, ninguém da minha família estudou e é tudo muito difícil para mim”. Arranjar um homem rico e usufruir do que o que meu corpo pode me proporcionar é muito mais fácil do que ler inúmeros artigos científicos e livros. Infelizmente, isso é fato! Vem enraizado na nossa população e dói muito para mudar. Isso porque toda luta provoca cicatriz, dor e sofrimento.

Hoje, como mãe do meu tesouro, meu maior sonho é vê-la estudando em uma escola bilíngue. Capacitar a minha filha e lutar com todas as forças para destruir esse sistema foi a forma mais fácil que eu encontrei de proporcionar um futuro melhor para a Sofia. E é por isso que estou aqui no Negrê, estou aqui para lutar por todas as Sofias e Sofios que nasceram e nascerão. Quero lutar por igualdade para que toda mãe, que pegar no colo um filho preto, só tenha em seu pensamento um sentimento natural de amor. Normal para umas, utopia para outras.

Correspondente internacional do Negrê nos Estados Unidos.

Foto de capa: Pexels.

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