Escrita Negra Narrativas

Quem cuida de quem cuida?

Essa semana foi aniversário da minha mãe, Dona Ana, pessoa do qual eu sempre tô falando. Então, resolvi falar um pouco mais pra vocês sobre ela…

Dona Ana é nascida de uma família pobre do interior do Ceará. Sua mãe sem condições de sustentar mais uma boca, resolveu dar ela para uma das famílias mais ricas da cidade de Brejo Santo (CE). Ana Cleide da Conceição chegou a tal casa com apenas dois anos e logo quando aprendeu a falar e andar, passou a ser ajudante dos afazeres domésticos e logo mãe, pois cuidava do irmão mais novo, que também tinha sido fruto de adoção.

Ana Cleide e pra alguns Aninha, apresentava fortes traços indígenas e negros. Sua família vinha muito dessa mistura e sua mãe adotiva, Consuelo, não gostava muito “desse tipo de gente” (sim, vovó era racista”). Logo, era comum Aninha ter mais tarefas domésticas que os demais, ganhar menos presentes que os demais e receber mais castigo que os demais (chegando a ir pro hospital depois de um desses castigos).

Aos 11 anos, seu pai adotivo, ex-prefeito, cometeu suicídio, dor ela que fala sentir até hoje, e com isso, mais da metade da riqueza da família se foi. E ela, junto de sua mãe, irmão mais novo e irmã mais velha, veio pra Fortaleza (CE). Onde continuou “trabalhando” como doméstica na própria casa, mãe do irmão mais novo, e agora como costureira, ajudando a sua mãe.

Aos 18 anos, se casa e com seu primeiro marido teve sua filha mais velha, Maria de Fátima, nome por conta de uma promessa. Após alguns anos, esse ex-companheiro muda o comportamento e a agride… até hoje, ela carrega a cicatriz na testa. E sem pensar duas vezes, Ana se separa, por já ter apanhado muito na infância, prometeu não deixar ninguém mais encostar nela. E assim, resolve criar sozinha a Fatinha. E mãe solo é uma realidade que vocês conhecem… As dificuldades financeiras fez ela deixar sua filha com sua mãe. Pois assim, a criança teria uma vida melhor, com melhores condições… E ela sofre em silêncio a dor de se afastar de sua filha.

Depois de algum tempo, Ana conhece Markito (meu pai) e teve sua outra filha, Nagyla. E nesse começo, Markito não foi um bom companheiro. Jovem, músico, mochileiro, a relação era muito complicada, faltava cumplicidade e rolava muito estresse (eles não me contam, mas eu sei). Ana trabalhava como costureira em confecção, passava o dia todo e nessa época morava num bairro que não tinha creche pública, e a falta de dinheiro impedia de colocar sua filha na particular. E por conta dos desentendimentos com Markito, ela achou melhor deixar sua sogra tomar de conta de sua outra filha por um tempo, até que ela tivesse mais estabilizada financeiramente. Sofre mais uma vez, por ter que se afastar de outra filha…

Anos depois, após muito estresse com Markito, vem eu. Aos 33 anos, cansada das batalhas, resolve mudar de bairro pra cuidar melhor do filho mais novo. E tentar uma relação nova com Markito. E dá muito certo. Porém, nesse novo bairro ela ganha uma missão especial, mesmo sem título, mesmo sem saber, ela vira quase que uma líder comunitária/dentista/farmacêutica/curandeira… E outras tantas coisas, além do ofício de costureira.

Morar em conjunto habitacional é compartilhar bem mais do que o quintal e uma parede, é compartilhar som, brigas, lutas por melhorias e claro, problemas. Ana virou uma ajudante do povo, qualquer coisa que se precisava era só ir falar com ela. De menino com bicho de pé ou pra arrancar o dente… Até aplicação de piercings com agulha de costurar. No currículo de feitos de dona Ana só não tem parto de gente, porque de resto…

Ela virou aquela pessoa que cuida de todos, todos procuram por receitas caseiras pra doenças, como pra comidas. E agora chego no ponto que queria. Dona Ana teve uma vida toda de batalha, de correria, de mudanças, de despedidas… Sofreu maus tratos, percas, falta de companheirismo… E, depois de tudo isso, ainda teve forças pra amar seu povo e cuidar deles. Mas e quem cuida da Dona Ana?

Às vezes, eu fico vendo o quanto a militâncias de internet é falha (me incluo nisso também). Falamos muito sobre abandono, solidão dos nossos. E por muitas vezes, não percebemos que isso pode tá ao nosso lado. Falamos muito através dos textões, de storys, de publicações, e isso não chega a metade da população preta desse país. A fala acadêmica e exigências de conteúdos nem sempre abraça os isolados e invisíveis nas periferias. Afinal, quantas Donas Anas existem por aí? Ainda pegando pesado no trabalho, voltando cansada de um dia de trabalho, já cansada da apanhar a vida toda? Não falo de jovens, falo de mulheres acima dos 50 anos. Quantas tiveram acesso ao afeto? Quantas são bem tratadas por sua família? E você? Sua militâncias atinge sua família? Sua ideia de união abraça a tia preta que tá voltando em pé no ônibus, cochilando? A senhora que serve de empregadas pros filhos e marido? A senhora da sua rua que só mora com gatos? A avó que cuidou dos irmãos, da mãe até a morte, dos filhos e agora dos netos?

Meu papel como ativista hoje nada mais é do que dar um castelo pra essa rainha que tanto já apanhou da vida. Minha missão é dar no mínimo dois abraços nela por dia. Pagar umas comida boa pra ela. E claro, dar seu conforto. Demorei pra notar que ela não era de ferro e que tava na hora de alguém retribuir tudo o que ela já tinha feito. Dona Ana tem um filho que puxou a ela, que cuida dos outros. E essa trabalho começa por ela, senão eu falho como ativista e como filho. Não quero culpabilizar a militância preta, afinal, sei quanto é difícil pra gente lidar com afeto. Também nem quero me promover em cima dessa ideia, mas o fato é que o afeto nos afeta e o efeito é forte. Pratique com todos! Já abraçou sua véia hoje?

Ana Cleide da Conceição. Foto: Arquivo pessoal.

Foto de capa: Gustavo Costa (Fotógrafo, documentarista, comunicador, estudando de geografia e morador da Sabiaguaba).

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