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Remover o Bolsonaro não será a solução!

Confesso que não sinto orgulho algum em admitir isso, mas eu conheço muitas pessoas que votaram no Bolsonaro, em 2018. Seria fácil e maniqueísta acusá-las de serem monstros. No entanto, nenhuma delas é necessariamente uma pessoa má, violenta ou inteiramente desagradável.

Apesar de acreditar que retirá-lo do poder possa ser o primeiro passo para um avanço político, é importante discutir sobre o perfil do eleitor, suas crenças e a herança que este (des)governo deixará.

Entre meus conhecidos que o elegeram, há uma grande variedade de grupos; vão, por exemplo, desde analfabetos funcionais até aos acadêmicos. Alguns com ideais fascistas, outros mais humanistas, gays, heterossexuais, brancos, negros, pessoas com deficiência (PcD), trans, cisgêneros, entre outros. Embora eu tenha me distanciado da vasta maioria, ainda mantenho contato com alguns.

Para fins de clareza histórica, é importante reforçar que a maioria dos eleitores de Bolsonaro são homens brancos e heterossexuais, muitos posicionados na faixa de renda mais alta da nossa sociedade e vários com escolaridade superior à média do país. Mas é igualmente importante lembrar que, em um país com uma população tão plural, ninguém pode chegar ao poder sem que cada grupo socioeconômico, racial e de gênero tenha contribuído com o seu voto e feito sua parte.

Em pesquisas recentes promovidas por órgãos como Genial/Quaest e Datafolha, Bolsonaro perde na intenção de votos para o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva por mais de 20 pontos percentuais. Analisando os últimos resultados, seria justo dizer que um grande número de eleitores mudou de ideia a respeito do presidente desde 2018.

No entanto, os resultados também mostram que muitos de seus eleitores planejam apoiá-lo novamente em 2022. Mesmo após vivenciarem uma pandemia mal administrada com mais de 600 mil mortos, consequências econômicas generalizadas em que muitos voltaram a passar fome, a crise amazônica e o aumento de ataques racistas, exacerbado pela retórica divisível do presidente.

Afinal, o que faria um eleitor que apoiou Bolsonaro em 2018 mudar de ideia para apoiar Lula no ano que vem? E o que faria um eleitor, mesmo decepcionado com a situação do Brasil, insistir em o eleger novamente?

Aqueles que ainda o apoiam, pelo menos 35% dos eleitores, apesar de suas expressões privadas de desconforto, são movidos por um desprezo ainda mais profundo pelos detratores do presidente. O ódio pelos negros, que consideram criminosos, pelo feminismo, pelos direitos LGBTQIA+ e por políticas que visam diminuir a desigualdade econômica, como o Bolsa Família, por exemplo, é maior do que a antipatia desses eleitores por Bolsonaro.

É preciso também destacar que existe uma grande rejeição por Lula no cenário atual. Na pesquisa do PoderData, 40% disseram que não votariam “de jeito nenhum” no petista. A má administração das vacinas pelo Governo Federal, no entanto, criou uma mudança perceptível no apoio de Bolsonaro em direção à Lula. Principalmente após o líder do PT deixar a prisão, em 2019.

Assim como o torcedor da seleção brasileira de futebol que só aparece durante o Mundial, existe também um tipo de eleitor que só se manifesta no período eleitoral. Ou seja, de quatro em quatro anos. Ele faz parte de um grupo geralmente apolítico cuja opinião é formada somente com base na rede de familiares e amigos. São os Phd’s de WhatsApp.

Após quase quatro anos sofrendo com cada derrota, cada retrocesso, cada retirada de direitos pelo governo Bolsonaro, posso dizer que não faço parte desse grupo. É aparente que essas pessoas não se importam com política em geral, porém temem perder algo. Mesmo não sabendo necessariamente o quê.

Muitos desses apolíticos até reconhecem o antiprofissionalíssimo, o racismo e o sexismo expelidos a cada discurso presidencial, pois só votaram nele porque acreditaram em Bolsonaro como a única solução para remover o ‘’corrupto PT”. Acreditaram que o presidente ascenderia à dignidade, uma vez eleito. Resignados e com uma mistura de horror e perplexidade, muitos admitem que tal transformação nunca aconteceu.

Apesar de tanto inconformismo com a forma como o país vem sendo liderado nos últimos anos, as pesquisas ainda mostram um Brasil repleto de indecisão. Muitos eleitores dizem que seu pensamento evoluiu ao longo dos últimos anos, e que não repetiriam o voto no atual presidente. Outros tantos, ainda assim, apontam com frequência todas as acusações de corrupção contra o PT, partido no qual eles desconfiam visceralmente.

O fiel eleitor de Bolsonaro tem desprezo aos petistas (a quem ele atribui todas as mazelas), odeia a mídia e desconsidera qualquer acusação contra o presidente. Esse eleitor não está disposto a discutir sobre o estado de direito, a corrupção do governo, e muito menos sobre o abuso de poder vindos de Brasília (DF).        

A pergunta que fica é: como essas pessoas ainda consideram votar no Bolsonaro novamente? Talvez, como diz o ditado: “É melhor tomar o veneno que você conhece do que o desconhecido”.

O fiel eleitor de Jair prefere acreditar que o presidente está sendo minado por forças ocultas, que é impossível para ele consertar a “bagunça” criada pelos governos anteriores. Para ele, Bolsonaro está constantemente em confronto com os “esquerdistas obstrucionistas”, uma mídia “tendenciosa” e “um bando de comunistas traidores da pátria”.

Um número significativo de eleitores de Bolsonaro, mesmo reconhecendo os fracassos do governo, ficará com o presidente porque acredita que um possível governo esquerdista seria pior. “Não podemos virar a Venezuela”, eles dizem.

No dia a dia, esses eleitores não pensam em política – e certamente não seguem a grande rotatividade que ocorre em Brasília. Muitos também não acompanham as notícias sobre a economia. Em vez disso, eles nadam em uma sopa cultural do Bolsonarismo, cercados por amigos, familiares e conhecidos de WhatsApp. Muitos desses ‘conhecidos’ vivem exclusivamente em um ecossistema digital de direita e ultradireita.

O racismo, o classismo e o machismo atormentam o Brasil desde a invasão europeia em 1500. Sem políticas de reparação para sua população negra e indígena, melhoras nas relações de gênero e implementação de políticas para minimizar a desigualdade, nunca sairemos dessa situação caótica. Caso contrário ficaremos nesse desgoverno por décadas, quiça talvez por séculos.

Presidente eleito, Luis Inácio Lula da Silva no Palacio do Planalto em 2003. Foto: Reprodução.

Recentemente, vimos o pré-candidato Luís Inácio Lula da Silva no podcast Podapah, reafirmando sua popularidade em todo o Brasil. No entanto, mesmo que Lula consiga uma vitória esmagadora em 2022, o ecossistema de ódio ainda permanecerá.

As mazelas criadas pela colonização e pelo racismo institucional permanecerão. A antipatia por petistas e “esquerdistas” e a desconfiança contra a grande mídia perdurarão.

Sem um vasto plano de inclusão nacional dos mais vulneráveis, dos negros, das mulheres, dos indígenas, dos periféricos e das pessoas com deficiência, infelizmente, simplesmente se livrar do Bolsonaro não acabará com os problemas do Brasil.

Foto de capa: Marcos Corrêa/PR/Flickr.

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Ouça o episódio #01 do Saúde Preta podcast – Por que falar sobre saúde da população negra?:

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