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A construção afetivo-sexual do povo preto: reflexões sobre feridas coloniais

Quem é preto e preta sabe como é complexo viver em uma estrutura antipreto/a, branca e violenta. Crescemos com referências brancas e na grande maioria das vezes, queremos ser Paquita, Barbie, Ken, Super-Homem ou qualquer pessoa branca que vestisse a pele da humanidade. É difícil querer ser quem somos, pois desde a infância aprendemos a nos odiar, odiar nossos cabelos, nosso nariz, nossa pele, nossa boca, nosso corpo, nossa forma de falar e nossa cultura. O auto-ódio é um grande instrumento de perpetuação e retroalimentação do racismo, pois ele violenta nossos corpos e toda nossa comunidade, afetando as construções de cuidados, afeto e amor entre nós e por nós.

Durante a história do povo preto em diáspora, a falta de amor foi produzida em nossa comunidade pela colonização, escravidão, racismo, patriarcado e estrutura monogâmica, na qual nos adoeceu e adoece até hoje. A ruptura histórica entre nós e nossa ancestralidade, produziu diversos traumas e marcas que estão sendo compreendidas e cuidadas aos poucos, na medida em que temos tomado mais consciência da nossa história e dos processos sociais e psicológicos que nos atravessam. No campo das relações afetivas-sexuais nos encontramos adoecidos/as, pois os traumas históricos ainda repercutem nas relações, o medo do preterimento, a insegurança afetiva, a lógica da posse, o machismo, a produção de uma masculinidade hegemônica, o mito do amor romântico, a autoestima baixa e outros atravessamentos que se fazem presentes nas relações amorosas.

Na ânsia de encontrar o amor (muitas vezes esse amor idealizado dos contos de fadas e filmes), vemos o branco como um ideal de ser no mundo, a estética valorizada, o símbolo do homem bem sucedido e poderoso, o ideal da mulher delicada para casar e a possibilidade de produzir menos sofrimentos aos futuros filhos e filhas de pele clara. Me lembro de um acontecimento há alguns anos atrás, em que namorava uma mulher branca, neste caso, estávamos saindo do prédio em que morava e fomos surpreendidos com a frase do agente de portaria: “Aê Paulo! Se deu bem em? Pegou logo uma branquinha”, confesso que no momento eu não ouvi, mas minha companheira me relatou exatamente o que tinha escutado. Prontamente, eu quis retornar para conversar com ele sobre seu discurso racista, porém, fui convencido por ela a deixar essa conversa para depois. O que eu queria destacar nesse fato é que no fundo, apesar de reconhecer o conteúdo racista da fala do agente de portaria, eu me sentia de fato que eu tinha me dado bem, sabe? Que eu, um homem preto e gordo estava me relacionando com uma mulher branca, a mulher perfeita e que significava a aproximação com os ideais da branquitude.

Para um homem que estava aprendendo a lidar com a sua aparência, com a autoestima baixa, que possuía muitas referências brancas e via na relação a possibilidade de ser enxergado como alguém, como um falso sopro de humanidade. Humanidade esta que não viria através de uma relação com uma mulher branca, mas de uma maior consciência racial, um olhar aprofundado para os traumas, meus medos, minhas inseguranças e o que significava para mim se relacionar com uma mulher branca.

Ao construir essa narrativa, eu não estou negando a possibilidade de relações interraciais, o que estou destacando é que essas relações (e qualquer outra) são atravessadas pelo marcador raça, e precisam ser construídas a partir deste lugar interseccionado por outros aspectos, como gênero, classe, sexualidade e etc. Não podemos cair na leitura distorcida que o amor não tem cor, ou o amor supera tudo, se antes não for pensado como cada pessoa da relação se identifica racialmente na sociedade. Como enxergam as relações raciais e seus atravessamentos, o afeto, o amor e o que estão dispostos/as a sustentar na construção afetiva. Nossos desejos e o que esperamos do amor tem relação com todo processo de violência que fomos e somos submetidos, tem relação com nossas experiências afetivas anteriores e como tudo isso atravessa nosso corpo. Não tem como fazer uma análise que essas questões não importam e não precisam ser discutidas, como também não tem como compreender que relação entre pessoas negras serão em si maravilhosas e incríveis. 

Fora de uma análise ampla e críticas sobre os afetos, avalio que há uma grande possibilidade de nós pretos e pretas construirmos relacionamentos interraciais, ou entre nós, pautados em idealizações do amor romântico, na posse, na aproximação com o ideal branco, na fantasia do casal preto de Wakanda, no medo de estar só, na busca de aprovação social ou em outros aspectos que nos afaste do que queremos em uma relação afetivo-sexual. E o que queremos em uma relação? Muitas vezes, acabamos sendo levados pelo mar dos poucos afetos, pela felicidade das migalhas de amor, e esquecemos (ou não acreditamos nessa possibilidade) de construir o que queremos de uma relação, o que é indispensável e o que é negociável.

Nesta tentativa, acabamos por construir culpados e culpadas para problemas nas relações amorosas, homens pretos culpando outros homens e mulheres pretas por se relacionarem com pessoas brancas, mulheres pretas culpando homens e mulheres pretas por se relacionarem com pessoas brancas, e pessoas pretas culpabilizando outras pessoas pretas por serem abusivas nas relações. Desta forma, individualizamos uma questão que é complexa e nos desresponsabilizamos em construir um olhar profundo sobre nós e nossas relações amorosas. A disputa e a culpabilização não é sobre nós, é sobre o que nos fizeram acreditar, por isso precisamos romper com essa lógica de “guerra dos sexos” para que assim possamos construir relações mais saudáveis entre os nossos.

Foto de capa: Pexels.

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