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Para mim e para todas as mulheres negras

Senti que hoje eu merecia parabéns. Senti que hoje eu deveria celebrar resistência. Minha e de muitas como eu, com histórias como a minha (que ainda está se escrevendo).

Senti que hoje, deveria me parabenizar. Por ter chegado até aqui. Por ter tido a coragem de partir (de lugares, situações, pessoas) para me encontrar em diversos momentos. Por ser bela, forte, sensível, inteligente e capaz – e reconhecer isso tudo. Por reconhecer a beleza que habita na minha tentativa de ser de verdade, de me mostrar real, de me mostrar imperfeita. Por lutar, brigar, e ajudar a construir um mundo melhor. 

Foto: Sora Shimazaki/Pexels.

Segurei firme em luta e resistência pra encontrar motivos pra seguir. Esses motivos não são só meus. Não foi individual, por mais que a solidão, por vezes, me abrace. Me agarrei numa razão coletiva. Infelizmente, individualmente, perdi muito. E preciso falar disso. Nunca é fácil. São perdas que machucam de imediato e te fazem perder de vista os ganhos que vêm durante o processo.

É fácil querer olhar apenas pra dor e esquecer de olhar pras potências. Vez ou outra tento trazer isso pro meu trabalho, tentando incentivar que se olhe para além do sofrimento. É sempre bom. Nunca é fácil. Mas tem objetivo.

Foto: Dziana Hasanbekava/Pexels.

Foi preciso me orgulhar de querer estar aqui por um propósito, por algo que me movimenta – coletivo. Ao mesmo tempo que reconheço o quão bela, inteligente e capaz eu sou – individual.

Dá pra entender que nunca estou sozinha? Ainda é preciso muito. E é um longo processo. 

Poder olhar pra trás e ter orgulho do que se percorreu é um exercício diário. Por vezes, me perdi nas minhas feridas e me senti presa, sufocada, sem conseguir olhar pra frente. Já consegui me perder por acreditar em quem me limitava a uma dor. É um caminho tortuoso, por vezes precisamos ser estratégicas.

É preciso olhar pra trás e reconhecer que o caminho que você trilha hoje, foi desenhado e permitido por quem veio antes. Sozinha ou não, você carrega a história daquelas que resistiram pra que você estivesse aqui.

Foto: Dziana Hasanbekava/Pexels.

E é por elas, e por mim, que eu me parabenizo e agradeço, por ter força pra me reerguer sozinha e ajudar a reerguer quem precisa de mim. Por seguir firme no que acreditamos mesmo com todas as trepidações do caminho. Por cair, diversas vezes, e levantar, sempre que lembro do motivo de estar aqui

Escrevo hoje por todas vocês. Escrevo pra não esquecer que não estou sozinha, para que vocês não esqueçam que não estão sozinhas.

Foto de capa: Dziana Hasanbekava/Pexels.

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